Greco-romana - HÉRCULES 10 - BOIS VERMELHOS DE GERIÃO, OS

Segundo a mitologia grega, Gerião era um monstro de três cabeças, ou três corpos, e provido de asas potentes, embora seja descrito em outro relato como uma figura assustadora, também com três corpos que lhe saíam da cintura, cada um com dois braços e uma cabeça, mas sem as asas.

 

Ele morava em Eritia, a “ilha vermelha”, situada próximo ao litoral da atual Espanha, no oceano Atlântico, uma das terras mitológicas do extremo oeste, entre as quais havia também Hespéria, jardim dos deuses; Sarpedon, ilha das Górgonas e Leuke, a ilha dos mortos bem-aventurados. O naturalista Plínio, o Velho (23-79), talvez o mais importante da Antiguidade, a situou em frente à cidade de Gades, hoje conhecida como Cadiz. Ainda mais a oeste estava o sombrio reino de Hades, deus do submundo e das riquezas dos mortos.

 

Gerião possuía um rebanho de excelentes bois vermelhos e cuidava dele em companhia do pastor Euritión, de quem se dizia ser violento e perigoso, e do cão Orto, que tinha duas cabeças e maior ferocidade, ainda.  Hércules foi encarregado por Euristeu de roubar esse gado e levá-lo a Micenas, na Grécia, completando, assim, a décima tarefa a que estava sujeito. O herói partiu então para a Líbia, na África, percorreu o litoral africano na direção oeste até alcançar o estreito que separa aquele continente das terras européias, e uma vez lá colocou em cada lado uma coluna de pedra, que correspondem às duas penínsulas rochosas (monte Calpe, na Espanha, e monte Abila, no Marrocos) a que os fenícios, em 630 a.C., batizaram como “colunas de Hércules”.

 

De lá ele caminhou até as terras onde Gerion mantinha os seus bois, encontrou-os pastando sob a guarda dos dois vigias, e quando se aproximou dos animais foi atacado primeiramente por Orto, ao qual matou com uma pancada de clava na cabeça, e logo em seguida por Euritión, que também investiu enfurecido contra ele, mas Hercules o derrubou com uma flechada no coração. Depois, cuidou de deitar-se à sombra de uma árvore, descansou o tempo que achou suficiente, levantou-se e tratou de tocar o rebanho rumo ao destino onde era aguardado. Nesse entremeio Gerion, que havia sido avisado por Menetes, pastor de Hades, da aproximação de Hércules, não demorou muito para chegar ao local, furioso e disposto a tudo para impedir que o seu gado fosse levado daquela forma. Mas também foi abatido com facilidade pelas flechas certeiras do herói.

 

Assim, de posse dos bois de Gerion, Hercules iniciou a caminhada de volta para casa sem desconfiar que encontraria uma série de dificuldades pela frente. E que dificuldades... O professor e escritor Marcio Pugliesi relata essa jornada em “Mitologia Greco-Romana - Arquétipos dos Deus e Heróis”, esclarecendo que na volta Hércules seguiu outro caminho, tomando rumo norte e passando pela Espanha, Gália, Itália, Sicília e Grécia, locais em que, de fato, proliferaram santuários ao semideus. Segundo esse texto:

 

“Os ligures foram os primeiros a atacá-lo no vale do Ródano. Eram em tão grande número que, esgotadas as setas e não havendo pedras na região, Hércules sentiu-se perdido e implorou a seu pai, que fez desabar uma chuva de rochas, permitindo-lhe, assim, desbaratar o ataque. Ao cruzar o Lácio, próximo ao local em que seria edificada Roma, teve de bater-se com Caco, uma espécie de deus do fogo, filho de Vulcano que vivia numa gruta do Aventino, pois esse deus decidiu roubar algumas das reses (oito, segundo a tradição). Hércules deixou que os animais pastassem livremente no futuro Fórum Boiarum, enquanto dormia às margens do Tibre. Ao contar os animais deu pela diferença e, guiado pelos mugidos daqueles presos nas cavernas, encontrou Caco e passou a lutar com ele. Embora o deus tivesse três cabeças e lançasse fogo pela boca, foi rapidamente morto pelo herói”.

  

Na Calábria, em Régio, um dos bois atravessou a nado o estreito que tem hoje o nome de Messina, entre a Sicília e a Itália. Hércules foi buscá-lo, e para reavê-lo teve que se empenhar em um combate mortal contra o rei da ilha. Vencida essa etapa, apressou-se em retornar ao caminho que percorria, mas durante a nova travessia do estreito viu-se obrigado a enfrentar os monstros Caríbdis e Cila, conseguindo escapar. Caribdis era um monstro marinho que ao tentar investir contra Hércules, foi lançado por Zeus às profundezas do mar; e Cila uma ninfa transformada em monstro pela feiticeira Circe.

 

Mais adiante, nas costas gregas do mar Jônio, o rebanho de bois vermelhos foi atacado por moscardos enviados pela deusa Juno (Hera), esposa de Júpiter (Zeus), que além de odiar o herói (filho bastardo de seu esposo), também se mostrava inconformada com os sucessos que ele vinha obtendo. Desesperados em virtude desse ataque, os animais fugiram e se dispersaram pelas montanhas das redondezas. Hercules foi atrás deles, mas não conseguiu juntá-los todos, novamente. Mas os que conseguiu reunir foram entregues a Euristeu e sacrificados pelo rei em honra à deusa vingativa.

 

Quanto aos demais, acabaram se transformando nos selvagens rebanhos da Citia, região da Eurásia habitada na antiguidade por grupos de povos iranianos conhecidos como citas. Sua localização e extensão variam com o tempo, indo do ponto onde as fronteiras de Mongólia, China, Rússia e Cazaquistão se encontram, à região do baixo Danúbio na Bulgária. 


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