Greco-romana - IO
Filha do deus-rio Ínaco, ela era cortejada por Zeus (Júpiter, para os romanos), que um dia, estando em companhia da jovem e sentindo que sua esposa Hera (Juno) estava se aproximando, transformou a moça em uma bezerra, dizendo, ao ser perguntado, que aquela era uma nova criação. Desconfiada, mas sem poder provar a infidelidade do marido, a deusa pediu-lhe o animal de presente, e Zeus não teve outro recurso senão atendê-la. Para evitar um reencontro dos dois, Hera colocou a bezerra sob a vigilância de Argos, que tinha cem olhos na cabeça, e este, dali em diante, deixava o animal pastar durante o dia, mas à noite o prendia com uma corda que amarrava em seu próprio pescoço (na ilustração, pintura de Antônio Corregio: Zeus, em forma de nuvem, abraçando Io).
Ao perceber o sofrimento da amante Zeus chamou Hermes (Mercúrio) e ordenou-lhe que a libertasse. Apresentando-se como um pastor de rebanhos que tocava sua flauta enquanto caminhava, o “mensageiro dos deuses” atraiu a atenção de Argos, e este o chamou para sentar-se a seu lado. O falso pastor sentou-se e contou diversas histórias, inclusive a de como fora criado o instrumento que usava de vez em quando para tocar suaves melodias, até que o vigilante de muitos olhos adormeceu, cerrando todos eles ao mesmo tempo. Aproveitando-se do descuido Hermes cortou sua cabeça de um só golpe e a jogou debaixo de um rochedo.
Para vingar-se Hera fez com que uma grande mosca passasse a perseguir a bezerra, obrigando-a a fugir constantemente pelo mundo à fora, até que certo dia, ao ser acariciada por Zeus, ela retornou à forma humana, e tempos depois teve um filho, Epafos, que a vingativa deusa fez desaparecer. Mas a mãe acabou por encontrá-lo na Síria, sob os cuidados da rainha de Biblos. Mais tarde, já no Egito, Io acabou se casando com Telégono, filho de Ulisses e de Circe, e que mais tarde viria a matar o próprio pai. A figura de Io foi confundida ora com Isis, deusa egípcia da maternidade e da fertilidade, ora com a Astartéia, deusa de todos os povos semíticos e associada a Baal, divindade da qual havia uma infinidade delas (das fontes, árvores, animais, das montanhas, etc). Todas eram tidas como personificação da lua.
A morte de Argos e posterior fuga de Io, é relatada por Thomaz Bulfinch, em “O Livro de Ouro da Mitologia”. Segundo o escritor americano, falecido em 1867, a deusa, não saciada em sua vingança, “mandou um moscardo (mosca grande) perseguir Io, que fugiu de sua perseguição através do mundo inteiro. Atravessou a nado o mar Jônico (que dela tirou o seu nome), correu pelas planícies da Ílíria, galgou o monte Hemo e atravessou o estreito da Trácia, dali por diante chamado de Bósforo (rio da vaca); vagou pela Cítia e pelo país dos cimerianos, chegando, afinal, às margens do Nilo. Zeus, enfim, intercedeu por ela e, diante de sua promessa de que não daria mais atenção alguma à ninfa, Hera concedeu em devolver-lhe a antiga forma. Foi curioso vê-la recuperar a própria aparência. Os ásperos pêlos caíram-lhe do corpo, os chifres encolheram, os olhos estreitaram-se, a boca diminuiu; mãos e unhas surgiram em lugar dos cascos das patas dianteiras; em breve, nada mais restava da novilha, a não ser a beleza. A princípio, Io teve medo de falar, mas pouco a pouco recuperou a confiança e foi levada de volta para junto do pai e irmãs”.
Segundo o mesmo autor, os filósofos apresentariam três teorias como possíveis fontes explicativas para os episódios mitológicos: a bíblica, a histórica e a alegórica. Por esta última “todos os mitos da antiguidade eram alegóricos e simbólicos, contendo alguma verdade moral, religiosa ou filosófica, ou algum fato histórico sob a forma de alegoria, mas que, com o decorrer do tempo, passaram a ser entendidos literalmente. Assim, Saturno, que devora os próprios filhos, é a mesma divindade que os gregos chamavam de Cronos (Tempo), que, pode-se dizer, na verdade destrói tudo que ele próprio cria. A história de Io é interpretada de maneira semelhante. Io é a lua e Argos, o céu estrelado, que se mantém desperto para velar por ela. As fabulosas peregrinações de Io representam as contínuas revoluções da lua, que também sugeriram ao poeta inglês John Milton (1608-1674), a mesma idéia:
Contemplas lá no alto a lua errante
Do apogeu, pouco a pouco, aproximar-se,
Como alguém que tivesse se perdido
Nas vastidões do céu, sem rumo andando”.
A história de Io foi contada por Esquilo (535-456 a.C.), poeta trágico grego, em um trecho de Prometeu Acorrentado: (... Io, desesperada e perdida, está sendo castigada por Juno (esposa de Júpiter) por haver conquistado o amor de seu marido. Io estava curiosa como ele, aquele acorrentado, sabia quem era o seu pai Íniaco, e perguntou quem ele era e porque estava ali acorrentado. Prometeu se apresentou e contou o que lhe havia acontecido, Io ficou horrorizada e lhe perguntou qual seria seu destino, o que havia lhe reservado (para Io) , mas Prometeu quis ouvir primeiro a sua história (...). então Io disse que após ser atormentada por uma voz que lhe dizia para entregar sua pureza à Júpiter, resolveu contar tudo ao seu pai Íniaco que rapidamente foi buscar respostas junto ao oráculo que lhe disse que Io deveria ser expulsa de sua casa e de seu país afim de evitar que a fúria de Júpiter caísse sobre ele destruindo a todos que lá viviam, e desde esse acontecimento ela andava pelo mundo, além de sua fisionomia ter mudado e possuir chifres na testa, além de atormentada por um inseto que lhe perseguia onde fosse, ainda havia sido colocada sobre a vigia de um cão pastor chamado Argos que possuía muitos olhos. Prometeu ficou penalizado com o sofrimento de Io, e lhe disse por onde deveria ir e qual o caminho que deveria tomar, e também lhe contou que o descendente de Io (Hércules) seria o libertador dele”.
Publius Ovidius Naso (43 a.C.-17), poeta latino mais conhecido nos países de língua portuguesa pelo nome de Ovídio, também fez o mesmo em “Metamorfoses”.





