Peixes - LAMPREIA-DO-MAR
A lampreia é um peixe pertencente ao grupo dos Agnatas, o mais primitivo entre os vertebrados. Surgida no período devoniano, ocorrido entre 416 e 359 milhões de anos, essa família praticamente se extinguiu ao final daquela era geológica, já que desse agrupamento restaram apenas os peixes-bruxas e as lampreias.
Dessas últimas existem hoje cerca de trinta espécies, vinte vivendo na América do Norte. Delas, a maior em tamanho é a lampreia-do-mar, cujo corpo cilíndrico, com cauda comprimida lateralmente, pode atingir mais de 1 metro de comprimento. Vivendo em todos os mares europeus (com exceção do mar Negro) e também ao longo das costas da América do Norte e da África ocidental, ela possui boca circular guarnecida com numerosos dentes, enquanto seu corpo liso e sem escamas tem na superfície uma grande quantidade de glândulas produtoras de muco. As nadadeiras são membranosas, os olhos, bem desenvolvidos, dispostos lateralmente, e a única narina está colocada em posição mediana na cabeça.
A maioria das espécies desse peixe é parasita de outros peixes. Para conseguir fazer isso, cada uma delas usa primeiramente a ventosa que tem na boca para se prender firmemente ao escolhido, passando, em seguida, a raspar a pele do hospedeiro com os seus dentes e língua (que também tem pequenos dentes), até abrir um buraco por onde o sangue da vítima começa a fluir lentamente, sendo imediatamente ingerido pela predadora através do tubo alimentar que começa no fundo e centro de sua cavidade bucal. Ao longo desse procedimento, que se iguala ao dos vampiros, glândulas salivares da lampreia produzem constantemente uma substância que impede a coagulação do sangue, sendo este líquido depositado sobre o ferimento produzido no hospedeiro (ilustração abaixo). Segundo os entendidos, os peixes de algumas espécies de lampreias, quando adultos, deixam de ser parasitas em virtude da degeneração de seus dentes e trato digestivo, razão pela qual não mais se alimentem, tendo a reprodução como única função.
As lampreias são animais dióicos, ou seja, têm sexos separados. Seu ciclo reprodutivo se inicia quando machos e fêmeas, ao atingirem a maturidade sexual, entram nos estuários dos rios e a partir daí deixam de alimentar. Uma vez em água doce, o macho é o primeiro a nadar correnteza acima à procura de um local que lhe sirva para o acasalamento. Encontrando-o, passa a levantar um muro com pequenas pedras que encontra no fundo do leito, juntando-as com a boca, no que logo é ajudado pela fêmea que o segue pouco tempo depois de sua partida. Terminado o ninho nupcial, ela põe ali cerca de 200.000 óvulos, aproximadamente, que são fecundados pelo macho. Cumprida sua missão reprodutiva, marido e mulher nadam rio abaixo, retornam ao mar e morrem logo depois.
Dos ovos eclodem, ao fim de duas semanas, pequenas larvas - chamadas amocetes - cegas e sem dentes. Cada uma delas permanece nesse estagio durante até sete anos, sobrevivendo enterradas no lodo e areia e alimentando-se de pequenos animais (micro-organismos) presentes na água. Ao atingirem a idade adulta, migram para o mar, onde então se alimentam de larvas de peixes e invertebrados, e só mais tarde iniciam o ciclo de parasitismo, passando a satisfazer suas necessidades nutricionais à custa do sangue de outros peixes vivos. Sem alternativa, estes se vêm forçados a transportá-la e alimentá-la até que se mude para outro hospedeiro, embora muitos, antes disso, possam morrer devido à perda de sangue ou infecção das feridas. Dentre esses hospedeiros, os preferidos são os tubarões, arenques, badejo, bacalhau e alguns mais.
Muito apreciadas na alimentação (em alguns lugares elas já correm risco de extinção em virtude da pesca excessiva) as lampreias já eram prazerosamente degustadas pelos romanos antigos, tanto que por volta de 100 antes de Cristo as grandes casas do seu império mantinham viveiros desse peixe.
Notícia divulgada nos Estados Unidos informa que a lampreia-do-mar, também chamada de peixe vampiro, está parasitando as espécies nativas dos Grandes Lagos, na fronteira entre os Estados Unidos e Canadá, que tem como um dos seus principais atrativos a pesca recreativa, indústria que arrecada bilhões de dólares por ano. As lampreias apareceram por lá acidentalmente, na década de 1880, após o término da obra do canal Erie, que liga os lagos a Nova York e, por redundância, ao Oceano Atlântico. Um século mais tarde, a construção de outros canais ampliou a possibilidade de acesso às águas dos lagos, e com isso as lampreias passaram a colonizá-los, acarretando o declínio sistemático da sua população de peixes nativos. Na opinião de um desses apreciadores da pesca, "Antes, nós tínhamos uma pesca próspera que dependia muito de peixes nativos como a truta do lago. Mas na década de 40 elas (lampreias) tinham colonizado dezenas de rios e os pescadores começaram a sentir os efeitos da devastação”.
A partir dessa constatação, possíveis programas de combate à infestação não desejada foram elaborados, e uma das medidas pesquisadas ficou por conta da Universidade Estadual de Michigan, cujos cientistas criaram um feromônio sintético, substância química relacionada com a atração sexual entre seres da mesma espécie, capaz de ajudar a combater a praga. E foi essa substância artificial, reproduzindo a produzida por um macho da espécie, que ao ser usada atraiu as fêmeas em ovulação, fazendo-as nadar contra a corrente em direção às armadilhas que haviam sido preparadas.
O uso dos feromônios está sendo estudado para eventualmente fazer parte do programa que inclui vinte rios alimentadores dos lagos, com o objetivo de atrair lampreias fêmeas para armadilhas, em uma experiência que durará três anos.





