Greco-romana - TOSÃO DE OURO

Tosão, velo ou velocino significam igualmente uma pele de carneiro com lã. A lenda do tosão de ouro trata, portanto, da pele de um carneiro que quando vivo transportou pelos ares um menino, Frixo, e uma menina, Hele, do reino de seus pais, Atamas e Nefele, para a Cólquida, no continente asiático. A menina despencou dos ares quando passavam pelo estreito que separa a Europa da Ásia - razão pela qual  esta passagem passou a ser chamada de Helesponto, hoje Dardanelos -, mas o menino chegou são e salvo às terras do rei Etes, na costa oriental do mar Negro, e por isso ofereceu o animal em sacrifício a Zeus. Este, muito lisonjeado, prometeu riqueza e prosperidade a quem tivesse em seu poder a pele do carneiro, e o rei, que a tinha recebido de presente, tratou então de guardá-la em uma gruta protegida por um dragão - ou por uma cobra - que nunca dormia.

 

Em outro reino vivia Jasão, filho do rei Esão, que passara a coroa para o irmão Pélias governar enquanto seu filho fosse menor de idade. Tornando-se adulto, Jasão foi reclamar a coroa a seu tio, e este sugeriu ao jovem que recuperasse o tosão de ouro de propriedade legítima da família, segundo ele. Jasão concordou com a idéia e preparou-se para a expedição mandando construir um barco, o Argos, capaz de transportar cinqüenta homens, e convocando jovens gregos amantes de aventuras. Diz a lenda que os arautos percorreram toda a Grécia à procura de candidatos interessados, não de qualquer um, mas sim de varões destemidos e dispostos a tudo, indivíduos fortes, de peito largo e possuidores de poderes incomuns. Anunciando a proximidade de uma grande viagem que partiria das praias da Tessália, esses mensageiros logo conseguiram que cinqüenta homens desse tipo se apresentassem para enfrentarem voluntariamente as inconstâncias do mar desconhecido, contando-se entre eles Castor e Polux, os gêmeos capazes de contornar tempestades; o músico Orfeu, cuja função seria a de ritmar as remadas e afastar com o som da sua lira e da sua voz divina os mortíferos cantos das sereias; o colossal gigante Hércules, ou Heracles, encarregado de evitar danos ao barco, enquanto Tifis, orientado na arte de navegação pela deusa Atena, assumia a pilotagem da nau batizada com o nome de Argos. Daí chamarem-se eles os argonautas, ou seja, os marinheiros da nau Argo (na ilustração, reprodução grega do barco mitológico).

 

Segundo alguns autores, o nome com que o barco foi batizado deveu-se não somente à velocidade com que poderia navegar - pois Argos significa ágil, veloz, de onde vem “arguto” -, mas também por causa de Argos, filho de Frixo, o construtor que fizera o seu projeto, sendo esta a versão mais aceita. A deusa Minerva inspirara e presidira a sua construção, empregando-se nesse trabalho a madeira retirada no monte Pélion, o que deu à embarcação o sobrenome de Pélias, ou Pelíaca. O mastro, por sua vez, foi produzido a partir da madeira de um carvalho da floresta de Dodona, o que fez dizer que o navio Argo manifestava os oráculos, e por isso lhe deram os cognomes de fecundo e de sagrado.

 

Os argonautas embarcaram no cabo de Magnésia. Na praia de Pégasas, na Tessália, abordaram a ilha de Lemnos, habitada então por uma colônia de mulheres, talvez as amazonas, e proporcionaram-lhes filhos. Na seqüência da viagem eles se viram envolvidos em inúmeras aventuras perigosas, entre elas à do Ponto Euxino, estreito com cerca de duzentos metros de largura e em cuja entrada os rochedos se moviam, aproximando-se uns dos outros e dessa forma estraçalhando os navios que tentavam vencê-los. Para ultrapassá-los os navegantes fizeram primeiramente sacrifícios a Juno e Netuno, invocando sua proteção, e depois soltaram uma pomba branca que ao passar pelos escolhos teve parte de sua cauda decepada. Tal fato foi interpretado como sendo um sinal positivo e por isso o Argos seguiu adiante, e assim como a ave, sofreu apenas pequenas avarias na popa. A partir desse dia o deus Netuno impediu que as pedras voltassem a se chocar, fixando-as para sempre.

 

Chegando finalmente à Cólquida os gregos expuseram o objetivo de sua viagem ao rei Etes, que para atendê-los passou a fazer uma série de exigências. Mas com a ajuda de Medeia, a feiticeira filha do rei a quem Jasão prometera casamento, ele e os seus companheiros superaram todos os obstáculos criados pelo monarca, até que com uma poção preparada por ela, fizeram o dragão dormir, penetraram no esconderijo e se apoderaram do tosão de ouro, retornando de imediato à Grécia. Mas a viagem de volta dos heróis não foi tranqüila. Muito pelo contrário. Perseguidos, eles foram forçados a se desviar da rota de regresso e efetuar uma longa tumultuada volta, passando pelos rios Danúbio, Pó e Ródano antes de desembarcarem em Egina e chegarem à Tessália, onde Jasão consagrou o Argos a Netuno, segundo alguns, ou a Minerva, de acordo com outros. Após a sua morte Jasão foi transportado ao céu e transformado em uma das suas constelações mais belas.

 

Gregos e romanos sempre acreditaram que essa extravagante viagem, ocorrida antes das façanhas de Ulisses, fora real, tanto assim que vários dos seus poetas, como Píndaro, Apolônio de Rodes e Valério Flaco, as relataram em detalhes. Um feito mítico que inspirou a maioria das expedições do mesmo gênero feitas bem depois no Mar Egeu e no Mediterrâneo, e que mereceram ser celebradas nos cantos de Homero e de Virgílio.

 

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