A a D - ALEMOA

Fernando de Noronha é um pequeno arquipélago de rochas vulcânicas, com 26 quilômetros quadrados, pertencente ao estado de Pernambuco e compreendendo cinco ilhas: Fernando, da Rata, do Meio, Rasa e de Lucena, além de outras ilhotas. Situado a 545 km de Recife e a 360 km da costa do Rio Grande do Norte, ele foi descoberto em 1503 pela segunda expedição enviada ao Brasil pelos portugueses, sob a chefia do conde Fernão de Noronha, e depois ocupado pelos holandeses no período 1635-1654 (que ali construíram oito fortalezas, atualmente em ruínas), pelos franceses, e finalmente recuperado pelos portugueses em 1738. Durante a Segunda Grande Guerra foi o posto mais avançado de defesa do litoral brasileiro, razão pela qual se concentrou no arquipélago, naquela época, um contingente apreciável de forças militares.

 

Antes de se tornar o paraíso turístico e ecológico dos dias atuais, o arquipélago foi local de detenção de condenados enviados a cumprir pena no presídio ali existente (Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios), que funcionou de 1737 a 1942 (de 1938 em diante apenas para presos políticos do Estado Novo). Reportagem da revista O Cruzeiro, de 2 de agosto de 1930, descreve o presídio como fantasma infernal para esses proscritos da sociedade que viviam completamente alheios ao que se passava no resto do mundo, apesar de o Governo proporcionar aos presos uma vida saudável de trabalho e de conforto. A Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios, maior fortificação do sistema defensivo implantado pelos portugueses no século 18, foi montada sobre um primitivo reduto holandês erguido em 1629.

 

Entre os relatos conhecidos sobre a chamada ilha de Fernando de Noronha, um diz respeito ao duende feminino conhecido como Alemoa, que aparece para os pescadores e caminhantes retardatários como uma mulher loura, nua, que depois se transforma num esqueleto, deixando completamente louco todo aquele que se deixou atrair por ela. Outras vezes sua aparição acontece na forma de uma luz ofuscante e com várias cores, perseguindo quem foge dela. Dizem que sua moradia fica numa elevação rochosa com altura pouco superior a trezentos metros, conhecida como Pico (ilustração abaixo) e absolutamente inacessível. Os habitantes de Fernando de Noronha dão a essa figura fantástica o nome de Alemoa porque tal palavra é uma corruptela de alemã, e para eles mulher loura só pode ser natural da Alemanha. Em outra versão, essa misteriosa mulher é descrita como uma holandesa que lá chegara na época da invasão.

 

Diz a lenda que em tempos remotos a ilha era um lugar onde havia uma rainha loura de beleza incomparável. Seu palácio ficava no alto de uma colina, de onde a rainha saía todos os dias para passear pelos seus esplêndidos domínios. Mas um dia as caravelas portuguesas chegaram àquele paraíso, e o reino encantado desapareceu. As belas construções foram convertidas em pedras e rochedos, o palácio real transformou-se na montanha que ganhou o nome de Pico, mas a alma da soberana permaneceu na ilha, vagando pelas praias e montes. A tradição também conta que nas noites de sexta-feira uma fenda se abre na pedra do Pico e por lá aparece uma luz, indicadora de que a alemoa está vagando pelas redondezas. Como a claridade é forte, chama a atenção dos que desconhecem a lenda, e quando um desses curiosos se aproxima do portal de entrada, avista uma linda mulher sem qualquer vestimenta, convidando-o a seguí-la. E se porventura ele estiver imaginando que vai desfrutar do corpo maravilhoso que caminha à sua frente, e por isso penetrar na montanha misteriosa, a ninfa se transforma numa caveira terrível, e o infeliz que se deixou enganar nunca mais é visto. Como bem disse Olavo Dantas em seu livro Sob o Céu dos Trópicos, publicado em 1938: “Os seus lindos olhos que tinham o lume das estrelas, são dois buracos horripilantes. E a pedra logo se fecha atrás do louco apaixonado. Ele desaparece para sempre”.

 

O escritor Mário Reis (1884-1959), ao escrever o livro Arquipélago de Fernando de Noronha (1916),  falou a respeito das  lendas do lugar. E disse: “Uma delas (lendas) diz respeito ao Pico. No alto da baliza aparece uma luz peregrina - alma errante de linda francesa, algumas vezes encarnada em ser humano. Viram-na sentenciados aos quais a francesa lhes ofereceu um tesouro. Certo dia um presidiário pescava sozinho ao escurecer. Sentiu pesar ao anzol. Ergueu a vara. Era o rosto da francesa em corpo de sereia. O pescador correu e a visão o chamou miserável por não ter querido desenterrar o tesouro. E a luz há de viver no Pico, com fogo-fátuo, até que um dia o ouro que o espírito guarda seja dado a alguém".

 

Segundo Luiz da Câmara Cascudo, a figura fantástica da Alemoa foi registrada por inúmeros escritores que visitaram o arquipélago. Entre eles "Gustavo Adolfo, Pereira da Costa, Mário Melo e Olavo Dantas, que desenharam a história da singular diabrete desnuda aos olhos dos sentenciados”.


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