A a D - BARBA-RUIVA

Duas histórias explicam a origem da lagoa de Paranaguá, no Piauí, situada perto da divisa desse estado com a Bahia (na ilustração, a cidade de Paranaguá à beira da lagoa). Na primeira, uma moça solteira teve um filho, mas querendo esconder o fato colocou a criança num tacho de cobre e o jogou no poço de uma fonte perto de sua casa. Acontece que nesse poço morava uma mãe d’água, e essa, penalizada com a sorte do bebê, resolveu salvá-lo. Por isso ela o colocou em terra, mas nesse momento as águas da fonte foram aumentando de tal forma que em pouco tempo cobriram tudo à sua volta, transformando o lugar numa lagoa.

 

Daí em diante as pessoas que passavam pelo lugar passaram a ouvir vozes e ruídos desconhecidos, ou então viam surgir das águas um homem alto e forte, cabelos brancos e barba ruiva, que não atacava ninguém com a intenção de feri-la, mas procurava abraçar e beijar as mulheres que lavavam roupa às margens da lagoa. Em outras oportunidades ele era encontrado cochilando, e ao ser acordado mergulhava nas águas sem fazer um gesto ou proferir palavra. Uma terceira versão garante que essa figura é menino pela manhã; ao meio-dia aparece como rapaz de barba ruiva; e à noite se transforma em um velho com a barba branca.

 

Na segunda história uma viúva vivia com três filhas à beira de uma fonte, mas uma delas ficou triste porque estava grávida e seu namorado morrera sem ter realizado o casamento. Então, ao dar à luz, ela colocou o recém-nascido em um tacho e o jogou na fonte, mas a mãe d’água que morava lá o trouxe de volta à tona e amaldiçoou a moça. A partir daí as águas foram subindo e alagando a região, a lagoa formada ficou encantada, cheia de luzes e vozes, e ninguém conseguia morar ali por perto porque durante a noite um choro de criança subia do fundo das águas. E quando ele finalmente parou, então um moço claro e com barba ruiva passou a surgir das águas ao meio-dia, mas ao anoitecer sua barba ficava branca. Essa figura misteriosa até hoje foge dos homens, mas como continua tentando abraçar e beijar as mulheres que vão à lagoa para bater roupa, elas só fazem isso se estiverem acompanhadas.

 

Na verdade, o Barba Ruiva não ofende ninguém, mas por ser pagão e encantado, um pouco de água benta e um rosário sacramentado poderão quebrar o seu feitiço. Porém, como até agora não apareceu nenhuma mulher disposta a fazer isso, ele continua cumprindo sua sina nas águas da lagoa de Paranaguá.

 

O engenheiro Gustavo Luiz Guilherme Dodt (1831-1903) percorreu em 1873 as bacias dos rios Parnaíba e Gurupi para avaliar a possibilidade de construção de uma estrada ligando o interior do Maranhão ao litoral. Suas observações foram relatadas na obra Descrição dos rios Parnaíba e Gurupi, onde, ao tratar da lagoa de Paranaguá, ele diz inicialmente que "ela ganha todos os anos mais terreno e que, segundo dizem, antigamente se achava uma vargem onde atualmente ela se encontra”. Mais adiante, referindo-se ao fenômeno que deu origem à fama da lagoa, ele faz alusão a uma "tradição antiga, que se refere a um infanticídio, e faz vagar pela lagoa a criança assassinada na forma de um velho com barbas brancas e assentado em uma vasilha de ouro”.


E completa a informação relatando que “Já estava quase caída em esquecimento essa tradição, que uma vez tinha produzido tanto medo que grande parte da população se retirou da vila, quando ela reviveu no ânimo do povo e causou um susto extraordinário por um fato que se deu em 1854, e que me seja lícito relatar em poucas palavras. João de tal, conhecido como homem sério e incapaz de mentir, foi tomar banho na lagoa pelas duas horas da tarde de um dia em que o sol abrasador e a falta de viração tornavam o calor insuportável. Escolheu um lugar onde uma gameleira frondosa oferecia uma sombra densa na margem da lagoa e assentou-se onde a água mal lhe chegou até o peito. Como logo começou a deitar água na cabeça, abaixou ele esta e não viu o que estava diante de si. Tanto maior foi o susto, quando erguendo a cabeça viu em sua frente um homem assentado como ele na água com os cabelos e barbas brancas que o olhava. Levantou-se e correu para a vila sem lembrar-se que estava sem roupa alguma, pois veio-lhe à mente aquela tradição antiga, a que já aludi, e embora que não visse senão a miragem de si mesmo como em um espelho, deu sua fantasia a esta e todos os traços que a lenda exige e isso com tanto mais facilidade como a miragem naturalmente se mostrava pálida e embranquecida".

 

Desde o século 19, por volta de 1830, os moradores da região próxima ao lago de Paranaguá já falavam com respeito sobre a lenda do Barba Ruiva, também conhecido por outros nomes (Urué, Barba Nova, Cabeça Vermelha). Dizia-se, inclusive, que ele era filho de Iara, a mãe d’água.


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