A a D - BICHO-HOMEM

A lenda do bicho-homem está presente em várias regiões do Brasil, onde a sua figura, com pequenas variações, é descrita como sendo a de uma criatura alta, quase um gigante, com um olho só no meio da testa, também um só pé redondo e enorme, que quando seu dono caminha vai deixando pelo chão pegadas com o formato de fundo de garrafa. Os dedos de suas mãos são compridos e disformes, as unhas longas e aguçadas, e os gritos que costuma emitir alarmam e apavoram os moradores da região onde habitualmente ele se oculta.

 

Segundo lendas antigas, certo dia alguns caçadores descobriram pegadas estranhas na estrada real de São João das Missões de Januária, e como não conseguiram identificar de que animal elas seriam, levaram a informação para o povoado em que moravam, de onde saíram, pouco depois, quase vinte cavaleiros à procura da estranha criatura. Mas por mais que os rastreadores andassem não descobriam nada, e na medida em que os dias iam passando, e o cansaço aumentando, o temor e a incerteza quanto ao desconhecido foram tomando conta desses homens, até eles decidirem que o melhor a fazer seria desistir da busca e voltar para casa, onde estariam seguros.

 

E foi o que fizeram. Mas a partir daí os comentários sobre o episódio começaram a correr de boa em boca, e não levou muito tempo para surgirem afirmações sobre a existência de um bicho-homem que já havia devorado dezenas de índios caçadores e meladores (gente que recolhe mel nas matas) de determinada aldeia. Em seguida, apareceram homens que atestavam tê-lo visto em algum lugar, descrevendo-o com cores tão vivas que a imagem da figura fantástica nunca mais abandonou a imaginação dos nativos daquela região.

 

Situação semelhante foi descrita em narrativas vindas de alguns lugares do Ceará, e em todas elas se dizia que o bicho-homem habitava as serras e penhascos do lugar, sendo capaz de derrubar a murros uma montanha. Mas qualquer que fosse a região onde a fera se escondia, a informação unânime era a de que ela devorava homens, e por isso todos o temiam e rezavam para não encontrá-lo por acaso em qualquer curva do caminho, porque se o bicho-homem resolvesse abandonar seu esconderijo, seria bem capaz de arrasar o mundo.

 

O folclorista Luiz da Câmara Cascudo (em Geografia dos Mitos Brasileiros, 1940), recorre ao professor Manuel Ambrósio, da cidade de Januária, Minas Gerais, autor de Brasil Interior (palestras populares - folclore das margens do São Francisco - 1912), para revelar uma história interessante sobre esse mito. Diz ele que em 1893, “no arraial do Jacaré, próximo ao rio São Francisco, apareceu, chorando de medo, uma índia tapuia com três filhinhos. Cercada pelo povo, a índia bradava ‘misericórdia’ e dificilmente conseguiu explicar a causa do pavor. Era o Bicho-homem, que abandonando as serras, vinha descendo  para os povoados. Era o fim de mundo. Ninguém escapava. Ela ouvira o grito intérmino e horroroso do Bicho-homem, grito que estava nos seus ouvidos. Indecisos os homens consultavam-se, quase certos da visita do monstro, quando um berro tremendo, inacabável, furioso, abalou os ares, esclarecendo o mistério. Era o apito do vapor “Rodrigo Silva’, que passava pelo rio”.

 

 

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Comentários:

  1.   SandroJoséRodriguesMartins diz:

    gostei bastante de sua maneira de escrever, bastante detalhista e gostosa de ler. Publiquei essa lenda no meu blog, claro ressaltando o autor do texto...