A a D - COTALUNA
O rio Gramame deságua no oceano Atlântico pouco abaixo de João Pessoa, capital da Paraíba, próximo à divisa com o estado de Pernambuco. A extensão de seu curso é relativamente pequena, assim como também é modesta a vazão de suas águas.
Em compensação, ele faz parte de uma lenda já contada em diversas línguas porque sua fama percorreu os quatro cantos do mundo, transportada que foi pela palavra dos que por lá passaram e dela tiveram conhecimento. E isso talvez se deva à semelhança que esse mito nordestino apresenta com outras sereias africanas e principalmente gregas e italianas, o que explica sua pele clara e a descrição de feições tipicamente mediterrâneas.
Dizem que o Gramame tem um fantasma feminino que adquire aspectos e comportamentos diferentes conforme a época do ano, mas sempre mantendo nessas situações o desejo manifesto de atrair seguidores enlouquecidos que quase nunca retornam do encontro com essa entidade fantástica. A lenda conta que nos períodos de inverno a criatura costuma aparecer aos homens como linda sereia, metade mulher, metade peixe, e sua magnífica figura de pele branca como a neve, cabelos negros como a noite, e olhos sedutores, arrebata o coração de banhistas incautos, provocando neles uma excitação amorosa praticamente incontrolável. Os que porventura concordam em atender ao chamado da sereia quase nunca retornam desse encontro presumidamente amoroso, porque, como revela a tradição, são mutilados e até mesmo devorados pela misteriosa aparição.
Já nos meses de estio, quando o tempo é quente e seco, a Cotaluna se transforma, assumindo a aparência de ondina, o gênio do amor que vive nas águas e surgindo aos olhos dos mortais como mulher linda e provocante, extremamente sensual, um mito de sexualidade que desce flutuando na correnteza tranqüila e silenciosa do Gramame atraindo a atenção masculina e despertando súbitas paixões. Nessas horas ela não promete coisa alguma, mas apenas expõe seu corpo, embriagando completamente os sentidos de quem a vê e despertando nele o desejo da posse carnal, do contato físico imediato. A tradição revela que poucos foram os que conseguiram voltar do seu encontro com a Cotalunha. E mesmo assim, os que puderam realizar tal façanha retornaram sem memória e sem vontade, porque elas foram sorvidas pelos lábios dessa entidade sobrenatural.
Para Luiz da Câmara Cascudo (Geografia dos Mitos Brasileiros, página 376), "Cotaluna é fantasma do rio Gramane. Pelo inverno é uma sereia, meio mulher, meio peixe, sem cantar, mas arrebatando os descuidados banhistas e mutilando-os... ‘Há quem fale até na sua antropofagia’, escreve Ademar Vidal... Seu aparecimento, mulher branca, cabelos negros, olhos sedutores, pintam a sereia, a Mãe d’Água emigrada de terras distantes e aqui amalgamada com o bruto Ipupiara, devorador de afogados.... Não promete riquezas nem possui palácios flutuantes. Seu encanto é imediato, físico, como o da Alemoa, da ilha de Fernando de Noronha. Embriaga os sentidos e o desejo de posse explica a loucura que fere seus namorados. Interessantemente, há quem volte dos braços dessa Morgana paraibana. Há quem tenha vivido amorosamente com a Cotaluna e depois voltado. Volta sem memória e sem vontade. Deixou a própria alma nos lábios da sereia nordestina”.





