A a D - CUCA

Cuca é uma expressão com que se amedrontam as crianças, e corresponde ao bicho-papão a que todas as mães recorrem em determinados momentos para aquietar a peraltice dos filhos. A palavra provavelmente seja derivada de côca, espécie de capuz feminino que serve para cobrir a cabeça deixando livre apenas o rosto, mas que também significa feiticeira ou abóbora (e até mesmo panela vazia) com furos representando os olhos, o nariz e a boca de uma pessoa, sendo iluminada por dentro para assustar e causar medo. Esse tipo de capuz é comum em Portugal, e a significação de feiticeira talvez seja decorrente do aspecto feio dessas peças do vestuário, o que levou a imaginação popular a associá-las a esse ser fantástico.

 

Dos personagens irreais que causam medo às crianças talvez seja a cuca o mais difundido, principalmente porque Monteiro Lobato, criador do Sítio do Pica-pau Amarelo, a imortalizou em suas histórias infantis. José Renato Monteiro Lobato, nome depois mudado para José Bento Monteiro Lobato, ou simplesmente Monteiro Lobato, nasceu em Taubaté, São Paulo, em 18/04/1882, e durante a infância leu todos os livros infantis vendidos nas livrarias de sua cidade. Daí seu gosto pela literatura, manifestado em escritos para jornais e revistas. Em 1918 ele fundou a primeira impressora nacional, a Monteiro Lobato & Cia, permitindo que os autores nacionais evitassem o envio de suas obras a Portugal, para serem impressas. A partir de 1921, Monteiro Lobato se dedicou à literatura infantil, e em 1943 fundou a Editora Brasiliense com a finalidade de publicar suas obras, das quais Narizinho Arrebitado iniciou a coleção intitulada Sítio do Pica-Pau Amarelo.

 

Nesses trabalhos o escritor criou personagens célebres, como a Emília, que diz o que pensa; o Visconde de Sabugosa, crítico ferrenho dos cientistas que só acreditam no que lêem; Dona Benta, a amiga das crianças; Tia Anastácia, sempre medrosa frente ao desconhecido; Narizinho e Pedrinho, personificando as crianças de todos os tempos, que na busca da felicidade aceitam o novo sem qualquer hesitação; e a Cuca, imaginada como sendo um grande jacaré verde e com costas coloridas por diversas cores, além da enorme cabeleira branca descendo até o início da longa cauda. A atividade maldosa que ela vive engendrando é a de levar meninos que teimam em não dormir para um lugar misterioso e distante, onde serão devorados ou incluídos em alguma magia.

 

Existem muitas canções e versos sobre a cuca, e talvez a mais conhecida seja a que diz “Nana, neném / Que a cuca vem pegar / Papai tá na roça / Mamãe foi cozinhar”.  Ou então “Vai-te, Cuca, sai daqui / para cima do telhado / deixa dormir o menino / o seu sono sossegado”.

 

Da mesma forma, são várias as maneiras como essa criatura é descrita pela crendice popular e autores diversos, sendo uma delas a de Luiz Câmara Cascudo, em Geografia dos Mitos Brasileiros:

 

“A Cuca, ou a Coca, é um ente velho, muito feio, desgrenhado, que aparece durante a noite para levar consigo os meninos inquietos, insones ou faladores. Para muitos, a Coca, ou Cuca, é apenas uma ameaça de perigo informe. Amedronta pela deformidade. Não sabe como seja o fantasma. A maioria, porém, identifica-a como uma velha, bem velha, enrugada, de cabelos brancos, magríssima, corcunda e sempre ávida pelas crianças que não querem dormir cedo e fazem barulho. É um fantasma noturno. Figura em todas as canções de ninar. Não há sobre ele episódios nem localizações. Está em toda parte, mas nunca se disse quem carrega e como o faz. Conduz a criança num saco. Leva nos braços. Some-se imediatamente depois de fazer a presa. Pertence ao ciclo dos pavores infantis que a Noite traz”.


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