E a H - GRITADOR

Diz a lenda que o vale do rio São Francisco é a região onde mora um duende conhecido como o Gritador, também tratado pelo apelido de Zé Capiongo. Contam que essa entidade fantástica é a alma de um vaqueiro que resolveu trabalhar durante a Sexta-Feira da Paixão e por isso arreou um animal e saiu pelo pasto campeando o gado que seu patrão pretendia reunir naquele final de semana. Depois disso nunca mais foi visto, nem ele, nem o cavalo ou mesmo o cachorro que o acompanhava. O povo do lugar garante que o moço foi castigado pelo desrespeito cometido no dia santificado e por isso virou a assombração que hoje vive gritando no mato, tocando uma boiada tão assombrada quanto ele. Muitos asseveram que esse espírito sobrenatural não tem hora para gritar, embora seja mais comum que o faça durante a noite, mas às vezes ele clama em altos brados quando é meio-dia, com o sol a pino, assombrando as pessoas e os bichos que por acaso estiverem por perto. Dizem ainda que nas noites de sexta-feira é possível ouvir com muita clareza o tropel feito pelos cascos do seu cavalo e os latidos do cachorro que nunca o abandona.

 

Uma outra versão sobre o Gritador é conhecida no Sul do país. Ela conta que este era um rapaz perverso, de índole má, e por isso mesmo gostava de judiar do seu animal de montaria, andando nele o dia inteiro, sempre em disparada, sem demonstrar qualquer preocupação em lhe dar de comer ou de beber. Aconteceu que em determinado dia a mãe do rapaz ficou penalizada com os maus-tratos sofridos pelo cavalo e por isso decidiu cuidar dele enquanto seu filho dormia: então ela lhe levou água e comida e depois soltou a corda que o prendia, para que pudesse fugir. Quando o jovem acordou e tomou conhecimento do que ocorrera, amarrou a mãe, colocou nela o arreio, montou e passou a esporeá-la com força, enquanto a coitada chorava de dor e de humilhação. Foi nesse momento que a velha senhora o amaldiçoou: “Quando você morrer não irá para o céu, mas ficará vagando sem rumo pelas matas, gritando de dor”. E isso realmente aconteceu. Dizem que na mesma noite em que o homem morreu, os moradores dos arredores ouviram gritos vindos da escuridão, o que continua se repetindo principalmente nas noites de lua cheia.

 

Sobre o Gritador existem relatos assemelhados em outras regiões do país, como a de São José dos Ausentes, no Rio Grande do Sul, por exemplo. Sobre este, a revista Época publicou reportagem que em determinado trecho diz o seguinte: “A vida seguiria no trote pausado não fosse uma alma penada que há mais de um século mexe com os brios dos ausentinos.... O nome da coisa que tem tirado o sono e o juízo de gerações é ‘Gritador’. Ninguém viu. Só ouviu, sempre no costeado do Rio das Antas. Quando o peão desavisado grita com a boiada, a coisa berra de volta. Mais alto e cada vez mais perto. É um gritão assim, 'oh', faz 'uhhh', relata Tio Nandi. Então o cabelo fica liso, os cavalos esmorecem, os guaipecas sobem nas pernas das mulas, os peixes desaparecem, as pedras escapam do chão e o gaúcho corre. Estamos sempre na iminência de ouvir o grito, coisa bem estrambólica. Eu mesmo achei que era mais homem do que fui quando ouvi o Gritador. A vítima só escapa de morrer de medo caso o Gritador esteja do outro lado do rio. Diz-se que o fantasma não sabe nadar.... A última expedição de machos que enfrentou o Gritador, para ‘desenganar o assombro’, teve trágico desenlace: dos quatro valentes, um se enforcou, outro 'morreu correndo e ganindo como um cachorro'. Silêncio na sala. Há de ser um tropeiro que morreu perdido nestes matos, sem ter a alma amansada por uma vela, interpreta Tio Nandi. A vida das pessoas daqui é um romance. E, o que eu sei, não perece".

 

Ou a de Aparados da Serra, também no Rio Grande do Sul, onde três versões diferentes justificam a existência dessa criatura. Uma delas diz que “um rapaz de Santa Catarina, no sopé dos Aparados, encilhou sua mãe ao saber que ela havia soltado seu cavalo. Esporeou-a por horas seguidas, mas sem conseguir matá-la. Depois de oito dias virou um animal peludo, com unhas muito grandes e rosto humano. Mesmo assim foi cuidado pela mãe até morrer”. Comenta-se a esse respeito que pessoas mais esclarecidas que já trabalharam na administração do Parque Nacional dos Aparados da Serra, dizem ter ouvido os gritos estridentes partindo do ar. Eles são conhecidos em toda a região e tornam-se mais freqüentes em noites muito escuras.


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