I a M - LABATUT

Pierre Labatut (1768-1849), general francês, comandou as forças brasileiras que em 1822 lutaram contra os portugueses na Bahia, derrotando-as no mês de maio daquele ano. Dez anos depois ele liderou os soldados que reprimiam movimentos de insurreição no Ceará, destacando-se nessa campanha pela violência e brutalidade com que tratava os insurretos, criando assim a fama de homem perverso e sem coração, do qual todos tinham medo. Oficial do imperador Napoleão Bonaparte, companheiro de Simon Bolívar (militar venezuelano que liderou o movimento revolucionário responsável pela libertação da Venezuela, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Bolívia, do jugo espanhol), mas de quem depois se tornou inimigo, Labatut foi premiado pelos serviços que prestou a D. Pedro I, pois em 1839 acabou sendo promovido a marechal-de-campo do exército brasileiro.

 

Mas o Nordeste não o esqueceu, e a lenda que surgiu no chapadão do Apodi, fronteira do Ceará com o Rio Grande do Norte, falando de um monstro antropófago e com forma humana, é reminiscência do comportamento que marcou a passagem do comandante francês por terras cearenses, entre junho de 1832 e abril de 1833. Dizem os pesquisadores que para os nordestinos daquela região o Labatut é um bicho terrível, pior que todas as criaturas fantásticas inspiradoras de medo, assim como o lobisomem, o caipora, a burrinha ou o cão coxo. Os mais antigos dizem que ele sai todas as noites em direção às cidades, para buscar alimento, pois como nunca consegue saciar o apetite vive em estado de fome permanente.

 

A fera anda descalça porque tem os pés redondos, mas suas mãos são compridas e de dedos longos como garras, os cabelos compridos, desgrenhados e sempre esvoaçando com o vento; o corpo é cabeludo e lembra o de um porco-espinho, e os dentes são grandes, enormes, tal como se fossem presas de elefante. Assim que a lua se apresenta o Labatut passa a correr pelas ruas num trote apressado, mas pára diante das portas procurando ouvir a conversa de quem porventura esteja falando, ou mesmo cantando, assobiando ou ressonando alto no interior das casas, e então faz de tudo para devorar o infeliz. O melhor sinal para que o povo possa se manter em silêncio absoluto, precavendo-se dessa forma contra a coisa ruim, são os cães que a acompanham pelas ruas, latindo nervosamente em seu encalço.

 

Sobre Pierre Labatut, o escritor e historiador brasileiro Afonso d”Escragnolle Taunay (1876-1958), em Grandes Vultos da Independência Brasileira, 1922, escreve o seguinte: “Labatut era violentíssimo e freqüentemente cruel. Desgostara a muitos oficiais e maltratara a outros tantos e a pessoas gradas da revolução baiana... fizera fuzilar numerosos pretos aprisionados aos portugueses e surrar muitas pretas, crueldade que revoltou o exército”. E em outra passagem, mencionando Virgílio Brígido: “Soldado amestrado, mas inepto e malquisto comandante, sua brutalidade, bem merecia tais ultrajes e amarguras”.

 

Também em Histórias do Sertão, 1918, Rio Grande do Norte, de Martins Vasconcelos, lê-se que “Labatut é um bicho pior que o Lobisomem, pior que a Burrinha, pior que a Caipora e mais terrível que o Cão-Coxo. Ele mora, como dizem os velhos, no fim do mundo, e todas as noites percorre as cidades, para saciar a fome, porque ele vive eternamente esfaimado. Anda a pé; os pés são redondos, as mãos compridas, os cabelos longos e assanhados, corpo cabeludo, como o porco espinho. Ele gosta muito mais de meninos, porque são menos duros que os adultos”.

 

Apesar de tudo, o nome do general, embora abrasileirado (Lobato), batizou bairro de Salvador, em uma região da capital baiana onde o petróleo foi descoberto em 1930 e explorado até 1978. Ao contrário do que possa parecer, a escolha do nome não traduziu uma homenagem ao escritor Monteiro Lobato, defensor incansável do projeto de instalação de uma indústria petrolífera nacional, e sim ao general francês Pierre Labatut, general envolvido no processo de independência.

 

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