I a M - MATINTA PERÊRA
Essa superstição ocorre em quase todas as regiões do Brasil e se trata, provavelmente, de uma variação da lenda do saci-pererê, pois no norte do país a Matinta Perêra é vista como um índio de pequena estatura e com uma perna só, que cobre sua cabeça com um gorro vermelho e anda acompanhado por uma velha extremamente feia. Por outro lado, o pássaro em que dizem que ela se transforma, uma ave preta chamada Matintapererê e que anda pulando em uma das pernas, apenas, é o mesmo que os índios tupinambás garantem ter dado origem ao negrinho endiabrado transformado em tormento dos viajantes perdidos na mata.
Ninguém sabe dizer com certeza se a Matinta Perêra é um pássaro ou uma velha. Uma versão a apresenta como uma ave misteriosa cujo assobio nunca se sabe de onde vem; outra garante que ela prefere aparecer durante as noites sem lua, como uma velha vestida de preto e rosto parcialmente coberto, soltando um grito estridente toda vez que avista alguma pessoa desacompanhada. As narrativas sobre seu comportamento revelam que durante a noite ela sobrevoa a casa dos que a trataram com rudeza e zombaria, assustando os moradores e colocando as criações em polvorosa. Também se fala que ela gosta de mascar tabaco, aparecendo pela manhã para buscar o fumo que lhe prometeram à noite. Sendo assim, para que se possa conhecer sua identidade basta gritar vem buscar tabaco toda vez que seu assobio for ouvido, porque a pessoa que bater na porta no dia seguinte, dizendo “eu vim buscar o tabaco que me prometeram na noite passada”, será a própria. Também é costume apontar-se alguma das senhoras de idade das pequenas localidades como sendo a Matinta-Perêra do lugar, principalmente se não for conversadeira.
Diz a lenda que essa figura fantástica percorre as redondezas do lugar onde mora toda vez que sente a proximidade da morte, e durante essa caminhada vai gritando aos quatro ventos “Quem quer?”. A infeliz que ouvir a pergunta e responder “eu quero” receberá a maldição e será sua sucessora. As pessoas que a viram, ou pelo menos garantem que isso aconteceu, descrevem-na como uma mulher velha de cabelos despenteados, que flutua no ar com os braços erguidos. Também se acredita que ela possua poderes sobrenaturais, podendo causar, com seus feitiços, sérios prejuízos à saúde de suas vítimas, tais como dores físicas insuportáveis e até mesmo a morte (na ilustração, escultura de Nelson Nabiça).
O site www.eln.gov.br descreve uma ave da família Cuculidae, espécie Tapera naevia, conhecida pelo canto que lembra a palavra saci, o que lhe valeu o nome pelo qual é conhecida. De acordo com essa descrição, ela está presente em todo o Brasil, e também do México à Bolívia e Argentina, sendo encontrada comumente em campos com arbustos e árvores esparsas, clareiras e cipoais em margens de rios. Tem 29 cm de comprimento, coloração pardo-amarelada, com numerosas manchas escuras nas asas, topete avermelhado com manchas claras e escuras, garganta, sobrancelha e abdome brancos. Alimenta-se de insetos, e vive de forma solitária na parte média ou na copa das árvores, razão pela qual não é vista com facilidade. Com relação à reprodução, põe seus ovos em ninhos de outras espécies de aves para que estas os choquem e criem os filhotes. No Brasil, seus ovos são encontrados em ninhos de joão-teneném, joão-teneném-becuá e joão-de-pau, entre outros. Põe de um a dois ovos, de cor azul-clara, em cada ninho parasitado. Como a incubação é mais curta do que a dos ovos do hospedeiro, o filhote pode usar seu bico para eliminar a concorrência dos falsos-irmãos. Conhecido também como matinta-pereira e pitica (Pará), saci-do-campo, sem-fim, fém-fém, peitica, tempo-quente, peixe-frito (Bahia), e peixe-frito-seu-veríssimo.





