I a M - MINHOCÃO

No rio São Francisco, o minhocão, ou surubim-rei, é considerado por muitos como o rei do rio. Os moradores de suas barrancas acreditam que ele tenha mais de trezentos anos, e por causa dessa idade tão avançada ficou grande demais, enorme, assustador, passando a inspirar um sem número de histórias guardadas na memória folclórica do povo daquela região. Como a revelada por J.M. Cardoso de Oliveira em Dois Metros e Cinco (1909), quando este autor transmite a informação dada por alguém que com ele conversava: “O Minhocão? Ah!, isso é sério! Porque ele existe mesmo, que eu já vi; de longe, felizmente. É um bicho enorme, preto, meio peixe, meio serpente, que sobe e desce esse rio em horas, perseguindo as pessoas e as embarcações; basta uma rabanada para mandar ao fundo uma barca como esta nossa. Às vezes toma a forma de um surubim de um tamanho que nunca se viu; noutras, também se diz, vira um pássaro grande, branco, com um pescoço fino e comprido, que nem uma minhoca, e talvez por isso é que se chama o Minhocão”.

 

O escritor barranqueiro Wilson Lima, conhecedor das histórias do rio, referindo-se ao minhocão diz o seguinte: “O minhocão, ou surubim-rei, é o rei do rio, mandando e desmandando em tudo na vontade dos peixes e na vontade das águas. Na opinião de muitos o minhocão é um surubim de mais de trezentos anos de idade que perdeu as barbatanas de tão velho, ficou roliço sem escamas e que enfurecido por isso vive fazendo mal, virando embarcações, comendo os outros peixes. Dizem que do minhocão nascem os porcos d'água, monstros das profundezas, muito feios, que têm a frente de porco e o resto do corpo de peixe e que nadam muito, e sob as ordens do minhocão cavam os barrancos fazendo-os tombar e danificam assim as roças de vazante plantadas pelos beiradeiros”.

 

O Minhocão é o monstro que povoa de mistérios o rio São Francisco, virando barcos com rabanadas doidas, espalhando pavores entre os barranqueiros e canoeiros, provocando erosões ao longo das margens. Dizem que quando as barrancas dos rios são cortadas a prumo; quando o solapamento da terra na linha d’água provoca desabamentos que prejudicam as roças de vazante dos que moram por ali, quando covas circulares na beira-rio mais se parecem com boca de túneis, foi porque o Minhocão passou com seu corpanzil por ali, trabalhando sem cessar em busca de não se sabe o quê. Sendo um animal anfíbio, ele deixa, à vezes, as águas do São Francisco e avança pela terra à dentro, esburacando o que é plano e aplainando os pequenos aclives, fazendo com que muita gente acredite que as depressões encontradas em várzeas, quando compridas e estreitas, tenham sido feitas pelo corpo dessa criatura quando ela esteve por aqueles lados. Sempre que um minhocão morre de velho e outro surubim centenário o substitui no governo do rio, há a mudança do reino. A corte é transferida para outro perau ou sumidouro, ao longo do rio.

 

O naturalista e escritor francês Auguste de Saint-Hilaire (o mesmo de se o Brasil não acabar com a saúva, a saúva acaba com o Brasil) realizou pesquisas em nosso país entre os anos de 1816/1822, percorrendo a região compreendida pelos estados que hoje constituem o sul e sudeste brasileiro. Na época, quando em Minas Gerais e Goiás, ele teve oportunidade de anotar muitas informações sobre o Minhocão, comparando-o a outros seres fantásticos que estão presentes no imaginário popular, como, por exemplo, a Boiúna, ou Cobra Grande, do Amazonas, ou outras serpentes fluviais encontradas em todas as literaturas do mundo.


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