N a Q - ONÇA MANETA

São poucos os registros que mencionam a existência da onça-maneta, embora esta lenda esteja presente principalmente nos estados de Minas Gerais e São Paulo. Trata-se, como o próprio nome dá a entender, de uma onça que não se sabe como perdeu parte de uma das suas patas dianteiras, e a partir daí passou a perambular por seu território de caça deixando marcados nas areias os rastros das outras três patas que lhe sobraram. Segundo a voz do povo ela é de uma ferocidade extrema, dona de força incrível e extremamente ágil, apesar da deficiência física que apresenta. Vivendo permanentemente esfomeada, a onça-maneta por isso mesmo ataca os rebanhos bovinos e os currais que vai encontrando por onde passa, desaparecendo assim que percebe o esboço de qualquer reação humana. Mas ela reaparece pouco tempo depois, quase sempre no mesmo local ou em suas proximidades, dando prosseguimento à sua continuada busca de alimento capaz de lhe satisfazer o enorme apetite.

 

Os poucos onceiros que afirmam tê-la conhecido mais de perto, garantem que a fera é desassombrada, não tem medo de coisa alguma, e por isso mesmo enfrenta com valentia e obstinação os cães e caçadores que a perseguem. Segundo esses relatos, a pata da onça foi gravemente ferida ou até mesmo decepada durante um confronto com alguns homens que a perseguiam, mas tendo conseguido escapar, mesmo caminhando com extrema dificuldade, ela, daí em diante, passou a viver dominada pela fúria, atacando as pessoas, seus animais domésticos e suas fazendas, como que movida exclusivamente pelo propósito de vingar-se do mal que lhe haviam feito. Temida e respeitada nas áreas onde é conhecida, a onça-maneta, segundo as poucas descrições que existem sobre ela, não sofre qualquer tipo de transformação em sua aparência natural, ou seja, não se transforma em ave, em outro animal, em pedra ou adquire a aparência de alguma coisa animada ou inanimada que lhe possa servir de disfarce diante de necessidade ou interesse de momento. Ela permanece sempre como uma onça de três patas, e provavelmente suas pretensas aventuras são simplesmente deformadas para mais em virtude do medo que inspira às pessoas, ou pela má fama que a acompanha.

 

Sobre ela, Luiz da Câmara Cascudo, em Geografia dos Mitos Brasileiros, diz que de seu conhecimento “apenas um escritor (Veiga Miranda, em “Mau Olhado”, 1925) alude à ‘Onça Maneta’. Cita simplesmente, sem detalhes, acidentalmente. Entretanto, ela é senhora de grande área de prestígio e deixa o rastro de suas três patas nas areias de dois estados brasileiros (São Paulo e Minas Gerais)... Não a fazem gigantesca, nem com faculdades de metamorfose imediata em árvores, pedra ou um outro animal ou ave. A Onça Maneta se mantém onça e suas aventuras são deformadas pelo medo e pela fama”.

 

O jornal Tribuna do Norte, da cidade paulista de Pindamonhangaba, publicou em 15/04/2005 uma interessante matéria sobre esse animal lendário. O texto principia da seguinte forma “Contava-nos o seu Lacerda do Arquivo Municipal que nos tempos do desbravamento um sertanista pindense, conhecido por capitão, seguindo o rastro de uma pintada lá pelas bandas do rio Piracuama, acabou descobrindo uma passagem para os sertões de Minas: a ‘Passagem do Piracuama”. Como forma de gratidão ele passou a proteger o tal felino, não permitindo  que atirassem no bicho. Infelizmente aconteceu de um aventureiro, que estava de passagem rumo às Minas Gerais, divisar com a pintada. Assustado com o tamanho da onça, ele mandou chumbo pra cima dela. A carga arrancou-lhe de uma das patas dianteiras, mas ainda assim ela desapareceu mata adentro. Depois disso ninguém mais soube do paradeiro da tal pintada. Uns diziam que ela tinha morrido em sua toca nos contrafortes da Mantiqueira. Outros, que sua carcaça apodrecera nas águas do Piracuama”.

 

E termina assim: “Muito depois, quando já nem se falava mais da onça da Mantiqueira, começou a correr a notícia de que uma pintada enorme e furiosa vagava pela região entre o Pico Agudo e a Serra Preta. Às vezes, ela era vista até nas cercanias de Campos do Jordão. Uns sertanistas que haviam dado com ela calculavam que o animal tivesse dez palmos da ponta do focinho até a cauda, e uns quatro palmos de altura. Seu pêlo era fulvo, revelando que se tratava de animal velho. Havia, no entanto, uma particularidade que a diferenciava de outras onças: não tinha uma das patas dianteiras, era uma onça maneta! Nas noites de lua cheia a fera urrava nas quebradas da Mantiqueira, amedrontando o povo das montanhas. Eram poucas as pessoas que tinham coragem de passar nos locais onde ela aparecia. Diziam uns que ela era o fantasma daquela onça da ‘Passagem do Piracuama’, que, há muito anos, um caçador tinha deixado sem uma das patas. Outros falavam que era o espírito da tal que, em noites de lua cheia, se apossava do corpo de outra onça maneta e saía atacando homens e animais. A onça da Mantiqueira ainda foi muito comentada até os meados do século XX. Lenda ou fato, o ‘seu’ Lacerda contava-nos que pesquisando certa vez antigos documentos no Arquivo do Estado, havia deparado com algumas notas referentes a uma enorme onça pintada, aleijada da pata dianteira, que vagava pelas encostas e altiplanos da Mantiqueira”.

 

 

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