N a Q - PORCA DOS SETE LEITÕES, A

Conta a lenda que em algum lugar do Brasil colônia uma baronesa arrogante e presunçosa praticava muitas maldades contra os seus escravos, até o dia em que um feiticeiro negro, revoltado com as injustiças que via acontecer e com as barbaridades que sua dona autorizava fazer com a gente de sua raça, transformou-a em porca. Não se sabe como ele fez isso, mas a história conta que os sete filhos da fidalga também foram castigados porque viraram leitãozinhos, e todos juntos passaram a fuçar o chão insistentemente, à procura de um anel misterioso, porque quando o encontrarem o encanto estará quebrado e mãe e filhos voltarão a ser o que eram.

 

A versão paulista é assemelhada, só que fala de uma rainha e de seus sete filhos que viraram porca e sete leitões brancos como o leite, por obra de um feiticeiro que agiu assim por vingança. A partir daí, ela e os filhotes, sempre juntos, passaram a vaguear pelas matas, botando fogo pelos olhos, nariz e boca, e escolhendo como lugar de morada os cruzeiros que existem à beira das estradas. Em outros relatos, a família encantada sempre aparece à noite, atrás das igrejas, nas encruzilhadas, nos becos escuros, perto dos cruzeiros e quase sempre nas ruas desertas. Ela roncando baixinho, e os filhotes grunhindo ao seu redor. Dizem que essa criatura fantástica não faz mal a ninguém, pois prefere assombrar os homens casados que voltam para casa já tarde da noite, e se estes senhores se dispuserem a encará-la, a mãe e os filhotes somem na mesma hora, mas reaparecem segundos depois, voltam a desaparecer, e ficam nesse vai e volta por algum tempo.

 

Essa lenda é comum nas regiões central e sudeste do país, mas para os estudiosos do nosso folclore, a sua origem, na verdade, é portuguesa.  Segundo eles, a explicação para a crença é a de que uma mulher de vida fácil que sempre interrompia seus estados de gravidez de alguma maneira, foi transformada em porca por um mago poderoso, enquanto os leitãozinhos correspondem a sete abortos praticados ao longo da vida mundana que ela levava. Sobre a origem lusitana dessa e outras histórias sobre seres fantásticos, vale registrar a versão do Instituto de Cultura Lusofona - Elos Clube de Uberaba, segundo a qual “Aos portugueses, os brasileiros devem a língua e, como conseqüência, nossa tradição da cultura popular, ou seja, o folclore brasileiro herdou formas de linguagem, de poesia e de prosa. Na poesia, destacamos a trova ou quadrinha, e na prosa, os lengalengas ou contos acumulativos, as histórias de trancoso, os mitos da Alamoa, Pisadeira, Porca dos Sete Leitões, Cabra Cabriola, Cuca ou Coca, Mula-sem-cabeca (Burrinha-de-Padre ou Burrinha) e o Lobisomem , conhecidos em toda a Europa”.

 

O folclorista Câmara Cascudo confirma em seu livro Geografia dos Mitos Brasileiros, a origem portuguesa dessa crença, e transcreve o que dela diz o escritor J. Leite de Vasconcelos, em Tradições Populares de Portugal (Porto, 1882): “Às Trindades, que é a hora aberta, é quase de fé que nas encruzilhadas se vê coisa ruim, na forma de uma porca com bácoros, ou galinha com pintos, ou uma destas mães com os pequenos da outra. Coisa ruim, o que venha a ser, não sei; parece, porém ser coisa mandada pelo diabo, ou o diabo mesmo”. E ainda: “O diabo aparece pelos corgos (ribeiros) em figura de uma porca com sete leitões (Mondim da Feira). Em Resende dizia-se que no sítio do Boqueirão do Paço aparecia uma porca ruça com uma manada de sete leitões ruços, e que esta porca era o Diabo”.

 

Também é de Câmara Cascudo a explicação de que “Quem  anda a desoras ouve, pelas estradas desertas, ao derredor do cruzeiro que preside a praça, nos becos estreitos, o ronco surdo de uma porca e os insistentes grunhidos de um grupo de bacorinhos novos. Se o homem tiver coragem de voltar-se para examinar, terá justamente os segundos necessários para notar a espécie suína e a filharada roncante. Depois, leitões e porca desaparecem inexplicavelmente, para reaparecer e sumir-se. Mas a visagem prefere visitar os homens casados, amigos de ocupações dispensáveis e alheias ao matrimônio”.


Deixe um comentário:

  

      

  

caracteres restantes.


Comentários:


Nenhum comentário.