A a D - CAPELA DE BOM JESUS - Ouro Preto - Minas Gerais
O povoado de Ouro Preto foi fundado em 24 de junho de 1698. Elevado à categoria de vila em 1711, e à de cidade em 1724, tornou-se capital da Capitania mineira, de 1720 a 1825, da Província e depois do Estado de Minas Gerais, de 1825 a 1897, quando a construção de Belo Horizonte tirou dela essa importância política. Chamada anteriormente de Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto, ela se tornou, em fins do século 18, importante centro intelectual e sede do movimento literário conhecido como o arcadismo mineiro, estilo literário surgido no final do século 17, defendendo o uso de uma linguagem simples e natural, clara e direta.
A vila também era um grande centro de irradiação do chamado barroco mineiro, com realizações na arquitetura, escultura, pintura e música. Palco de importantes e significativos acontecimentos da história mineira, suas ruas estreitas, suas praças e ladeiras, seus casarões imponentes e suas igrejas de rara beleza, também estão presentes em inúmeros causos e lendas que sua gente veio transferindo de geração em geração, e que constituem um acervo inigualável que somente o folclore ouro-pretano pode se dar ao luxo de possuir. Um deles tem relação com a singela capela de Bom Jesus do Taquaral, construída em 1748 para assegurar, segundo se assevera, a boa sorte e a proteção dos aventureiros que arriscavam a vida na mineração de ouro.
Diz a lenda que um rapaz de Braga, Portugal, sentiu-se atraído pelas riquezas que, segundo revelavam as notícias chegadas à sua terra, estavam sendo conseguidas em Ouro Preto, onde a busca pelo ouro ainda avançava em sua fase inicial. Entusiasmado com aquela possibilidade de ficar rico em pouco tempo, ele tratou de conseguir passagem no primeiro navio a zarpar de seu país para o Brasil, tendo recebido de sua mãe, na véspera da partida, uma pequena imagem do Senhor Bom Jesus, para lhe dar a proteção necessária. O jovem agradeceu, jurou que tão logo conseguisse ganhar dinheiro suficiente mandaria construir uma capela em louvor ao filho de Deus, e embarcou algumas horas depois.
Aqui chegando o moço logo começou a trabalhar na nova atividade, e como era bom de serviço conseguia arrancar da terra boa quantidade de ouro que logo vendia aos compradores que não o deixavam em paz. Mas esquecido da promessa feita à mãe, gastava tudo o que apurava com bebidas e mulheres, e assim sua vida foi se tornando tão desregrada, tão libertina, que em pouco tempo seu organismo tão exigido pelo trabalho estafante, não resistiu às noites seguidas de orgia e prazeres, e ele adoeceu. Já sem forças para executar as pesadas tarefas que a garimpagem lhe exigia, o coitado passou a andar solitário pelas ruas de Ouro Preto, porque - e isso não é novidade, nem nunca foi - os falsos amigos sempre desaparecem nas horas amargas em que o dinheiro vai embora, em busca de outro dono.
Até que certa noite ele encontrou em seu caminho uma pessoa bem vestida que o convidou para visitar, em sua companhia, alguns lugares freqüentados por muitas mulheres de vida fácil, e onde a bebida corria solta. Assim foi feito. Os dois ficaram juntos durante três horas, e ao fim delas o desconhecido, dono de conversa agradável e cativante, lhe disse que era o diabo em pessoa, que lhe daria vinte anos de completa saúde, muitos amores e grande riqueza, mas que ao fim desse prazo exigiria em troca a sua alma. O rapaz nem pestanejou: aceitou de pronto a proposta, e depois disso viveu duas décadas gozando de muita saúde, prosperidade e dinheiro, conforme lhe fora prometido, chegando até mesmo a esquecer o trato que fizera com o capeta.
Um dia antes de encerrar-se o prazo fatídico, o diabo apareceu para o moço e lhe disse que se preparasse para o dia seguinte. Este se assustou com a cobrança, mas como se transformara em um homem esperto e de pensamento rápido, logo reagiu dizendo ao demo que antes do acordo que os dois haviam feito, ele tinha jurado à sua mãe construir uma capela para o Senhor Bom Jesus. “Não seja por isso”, respondeu-lhe o cobrador infernal, e tratou de construir com rapidez demoníaca uma capelinha no primeiro terreno baldio que encontrou. Tão logo ela ficou pronta o português correu até a sua casa e voltou com a imagem do Bom Jesus apertada junto ao coração, ao mesmo tempo em que esconjurava o Diabo. Este ficou furioso com o que acontecia, e estava a ponto de destruir a capela quando o rapaz, correndo para dentro dela, colocou a imagem do Senhor Bom Jesus no altar. Foi assim que o demônio perdeu a posse da construção.
Diz a lenda que o rapaz, devidamente arrependido da vida que levara até aquele momento, entrou no caminho da penitência. Passou a dormir na pedra fria que cobria o chão da capelinha, e se entregou à função de zelador da pequenina igreja durante os muitos anos de vida que ainda teve pela frente.





