I a M - LENDA DA MANGUDA - São Luis - MA

A crendice popular sempre foi o terreno fértil em que nasceram e cresceram as superstições e os mitos existentes com fartura em todos os povos. São incontáveis as histórias americanas, européias, asiáticas e oceanienses, que falam de fantasmas e assombrações, de criaturas fantásticas das mais variadas formas, de lugares e recantos que se tornaram mal-afamados em conseqüência de acontecimentos misteriosos lá acontecidos, e invariavelmente atribuídos ao sobrenatural, às coisas do outro mundo. Daí se poder dizer que cada localidade, cada agrupamento humano tem guardado na memória dos seus moradores o registro de fatos inexplicáveis vividos pelos seus antepassados, cujo sentido místico é resguardado sob a capa de mistério, de imponderável, de incompreensível, de enigmático.

 

A cidade de São Luís, capital do estado do Maranhão, é uma delas. Fundada em 1612 por Daniel de La Touche, senhor de La Ravardiére, que veio da França com uma expedição composta por mais de quinhentos homens e se estabeleceu, de início, em uma ilha próxima ao continente (a que chamaram de São Luís em homenagem ao seu rei, Luís XIII), ela se tornou símbolo do ardor patriótico daqueles que defendiam a integridade física do solo brasileiro: em 1615, na batalha de Guaxenduba*, os portugueses, chefiados por Jerônimo de Albuquerque, tomaram a ilha e expulsaram seus ocupantes. Livre das tropas francesas, e posteriormente das holandesas, São Luís tornou-se importante centro de comércio colonial, e foi justamente essa atividade que proporcionou o surgimento de uma das mais conhecidas lendas maranhenses, a da Manguda, que sobressaltou e encheu de pavores não só as crianças, mas também grande parte dos adultos da pacata cidade provinciana.

 

Em 1719 foi erguida uma capela na região conhecida como Ponta do Romeu. Anos depois, em 1775, essa pequena ermida ganhou maiores proporções e recebeu o nome de Igreja dos Remédios, o mesmo dado posteriormente ao bairro onde ela se alojava. Uma dos mais belos e conservados templos católicos da capital maranhense, a Igreja dos Remédios fica de frente para a atual Praça Gonçalves Dias, também conhecida como Largo dos Remédios justamente por causa do santuário, realizando-se ali, no mês de outubro, uma das mais tradicionais festas religiosas de São Luís. O terreno onde ela está situada pertencera à Ordem de São Francisco, e era conhecido anteriormente como Largo dos Amores, porque a escadaria ali existente sempre foi um dos locais preferidos para encontro de namorados.

 

No final do século 19, o Largo dos Remédios e adjacências era uma região mal iluminada, e por essa razão evitada pela população local tão logo a noite caía. Nas imediações ficava situado o porto do Jenipapeiro, pouco fiscalizado pelas autoridades policiais porque estas, acreditando que a guarnição da penitenciária existente no lugar onde hoje funciona o Hospital Presidente Dutra, estaria se encarregando normalmente dessa missão durante o desempenho diurno e noturno de suas atividades de guarda e vigilância, consideravam tal providência como desnecessária. Mas a presunção não era correta, e sabedores desse fato os comerciantes envolvidos com o contrabando de mercadorias (especialmente tecidos europeus), que já haviam fracassado em diversas tentativas de recebimento das cargas ilegais, perdendo-as com os flagrantes e as apreensões efetuadas pela polícia, escolheram o Jenipapeiro como ponto ideal para a entrada do contrabando que chegava nos navios vindos do exterior, evitando dessa forma o pagamento dos impostos devidos (na ilustração, praça Gonçalves Dias).

 

Para facilitar ainda mais as coisas, os contrabandistas idealizaram e executaram o plano de assombrar as redondezas da praça e da Igreja dos Remédios com uma aparição fantasmagórica: um vulto de grande tamanho envolvido em uma espécie de camisola branca, com mangas largas e compridas - daí a razão de ter sido batizada com o nome de Manguda - tendo o rosto disfarçado por uma máscara caveirosa e soltando fumaça pelo alto da cabeça. O embuste funcionou durante certo tempo, até que alguns cidadãos mais corajosos desconfiaram de alguma coisa e decidiram verificar de perto o que estava acontecendo, descobrindo que não havia nada de sobrenatural na estranha aparição, muito pelo contrário, ela era humana até demais, pois servia apenas para encobrir as atividades ilegais dos comerciantes interessados em lesar o tesouro imperial.

 

Mas tem gente que até hoje jura de pés juntos que a história é verdadeira.

 

* Mais informações no texto Milagre de Guaxenduba do arquivo Crenças e Lendas.

 

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