I a M - MISSA DOS MORTOS - Ouro Preto - MG

A cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, fica situada sobre diversas colinas que compõem a extremidade meridional da serra de Ouro Preto, contraforte da serra do Espinhaço. Sua altitude é de 1.100 metros, e bem próximo fica o pico do Itacolomi, com 1795 metros de altura. Fundada em 24 de junho de 1698 e elevada à categoria de vila em 1724, Ouro Preto foi capital da capitania de Minas Gerais de 1720 a 1825, servindo de palco para inúmeros fatos relevantes da história do Brasil, como a rebelião de Felipe dos Santos, em 1720, e a Inconfidência Mineira, em 1789, que resultou na condenação à morte de Tiradentes, no suicídio do poeta Cláudio Manoel da Costa, e no degredo dos demais participantes da conjura. Seu nome, na época, era Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto.

 

Muitas lendas envolvem o passado dessa cidade histórica nomeada patrimônio da humanidade, relatos de acontecimentos fantásticos que vieram sendo transmitidos de uma geração para outra, porque se confundem com a tradição do lugar. Em outras palavras, o amor, o ódio, a cobiça, a inveja, a repressão, a injustiça, o medo e os anseios de liberdade foram os sentimentos que gravaram na pedra-sabão de suas imagens sagradas e profanas, a vida e o destino de uma povoação cuja riqueza folclórica enaltece e glorifica toda a nação brasileira.

 

Um desses fatos aconteceu por volta de 1900 na igreja de Nossa Senhora das Mercês, de Cima (ilustração), pequeno templo católico situado ao lado de um cemitério. Dizem que em certa noite o cidadão chamado João Leite, zelador e sacristão da igreja, uma pessoa muito popular e querida em toda a região, preparava-se para dormir em sua casa quando percebeu que algumas luzes estavam acesas no interior do prédio entregue a seus cuidados. Receoso de que ladrões estivessem roubando as imagens dos santos, ele resolveu verificar, e ficou surpreso ao descobrir que na igreja cheia de fiéis o padre se preparava para rezar a missa. O zelador estranhou a cerimônia realizada àquela hora, sem que dela ele tivesse sido informado previamente, e mais ainda ao perceber que todos os presentes vestiam roupas escuras e mantinham abaixadas suas cabeças. Quando o vigário voltou-se para dizer o Dominus Vobiscum, o vigia constatou que seu rosto era uma caveira, que os coroinhas também eram esqueletos vestidos, e que a porta lateral voltada para o cemitério estava escancarada. Então ele voltou correndo para casa, trancou-se em seu quarto, e de lá ficou ouvindo até o fim aquela missa do outro mundo.

 

Em 23 de outubro de 1949, o jornal Estado de Minas, editado em Belo Horizonte, publicou uma pequena crônica sobre essa lenda. Escrita por Augusto de Lima Júnior, ela diz o seguinte:

 

“Pois João Leite, segundo a narrativa que lhe ouvi, já lá se vão mais de cinqüenta anos, assistiu a uma missa dos mortos. Morando na sacristia do templo cuja conserva lhe era confiada, achava-se  recolhido altas horas da noite  quando ouviu bulha na Capela. A noite era uma daquelas frias e chuvosas de Ouro Preto, quando, nos começos de setembro, aqui em Minas, começava o tempo das águas.

 

João Leite estava com a cabeça coberta e escondidinho para esquentar-se melhor. Sentindo os rumores, descobriu-se e viu claridade desusada. Seriam ladrões?, perguntou-se. Mas a igreja era pobre e qualquer ladrão, por mais estúpido que fosse, saberia que a capela das Mercês, sendo paupérrima, não dispunha de prataria, nem de qualquer coisa que valesse um sacrilégio. Enfim poderia acontecer, raciocinou João Leite. Estava ainda nessa dúvida quando ouviu distintamente o “Deus vos Salve” do começo da ladainha. Ergueu-se, então, e com aquela coragem que caracteriza os homens intrépidos, encaminhou-se pelo corredor até a porta que dava para a capela-mor. Penetrando por ela, verificou que a igreja estava toda iluminada, altares, lustres e completamente cheia de fiéis. No altar-mor um sacerdote devidamente paramentado celebrava a missa. João Leite estranhou a nuca do padre muito pelada e branca, não se lembrando de calvície tão completa no clero de Ouro Preto. Os fiéis que enchiam a nave trajavam de preto e, entre eles, alguns cógulas e algumas mulheres com o hábito das Mercês, todas de cabeças baixas. Quando o padre celebrante voltou-se para dizer o “Dominus vobiscum”, João Leite constatou que era uma simples caveira que ele tinha em lugar da cabeça. Assustou-se um tanto, e nesse momento, reparando nos assistentes agora de pé, viu que eles também não eram mais do que esqueletos vestidos. Procurou logo se afastar dali e, caminhando, deu com a porta que deitava para o cemitério completamente aberta”.

 

Deixe um comentário:

  

      

  

caracteres restantes.


Comentários:


Nenhum comentário.