N a Q - OURO DO CORCOVADO, O - Ubatuta - SP

O morro do Corcovado, a meio caminho entre Ubatuba e Caraguatatuba, litoral norte paulista, é o ponto mais alto da região, elevando-se por mais de mil metros acima do nível do mar. Em dias límpidos, o panorama de que lá se descortina abrange desde Parati, no sul do Estado do Rio, até bem abaixo de Caraguatatuba, numa visão deslumbrante, assim como lindas são, também, as lendas contadas a seu respeito, todas enriquecendo de forma única o folclore brasileiro, um dos mais interessantes do mundo.

 

Uma dessas histórias fala de certo capitão Manoel Fernandes Corrêa, dono de uma bela fazenda na praia Dura, de águas claras e calmas, distante pouco mais de vinte quilômetros da atual cidade de Ubatuba. Conta-se que certo dia sua filha de nome Alice saiu a passear pelas redondezas. Mais imprudente que despreocupada, ela caminhou durante algum tempo por entre a vegetação da área, desviando-se de uma moita espessa para a direita, de outra para a esquerda, e para acolá de mais alguns arbustos que lhe fechavam a passagem, sem prestar atenção no rumo que tomava, até que se perdeu completamente. Por mais que procurasse, ela não conseguia encontrar o caminho de volta para casa, e por isso, desconsolada, sentou-se em um trecho limpo do chão, cruzou os braços sobre os joelhos, descansou neles a cabeça e pôs-se a chorar amargamente, cada vez mais amedrontada quanto ao que poderia lhe acontecer.

 

Na fazenda, ao ser avisado de que a mocinha sumira, seu pai chamou alguns escravos e mandou que eles a procurassem por todos os lados, prometendo que daria liberdade imediata àquele que a trouxesse de volta. Quem finalmente a encontrou no sopé do morro Corcovado, foi um negro forte chamado Pedro, mas somente depois de ter vasculhado dentro da mataria por muitas horas, e como ela estava extremamente cansada, ele a carregou nos braços durante todo o trajeto da volta, entregando-a diretamente ao capitão. No dia seguinte, como estava muito cansado devido ao esforço feito na véspera, Pedro não conseguiu trabalhar da forma como o feitor pretendia, e por isso foi açoitado sem piedade. Sabedora do acontecido, Alice saiu de seus aposentos à procura do pai, e ao encontrá-lo exigiu dele o cumprimento do prometido, ou seja, a liberdade do escravo que a achara perdida no mato, no que foi atendida.

 

Ao se ver livre, Pedro agradeceu à jovem benfeitora, beijou suas mãos e saiu da casa do fazendeiro Manoel Fernandes tomando a direção do Corcovado. Lá chegando, levantou uma choça junto à cascata existente no lugar que escolhera, próxima ao morro de pedra, e nela passou a morar. A partir daí os dias se foram rapidamente, completaram um, dois, três meses, até que de repente os moradores da região tiveram notícia de que o ex-escravo Pedro, quando vinha à povoação, trazia pequenos gomos de bambu cheios de ouro, com os quais adquiria fumo, cachaça, comida, e tudo mais que precisava. Essa informação despertou de imediato a ganância e a cobiça nos homens que viviam nas circunvizinhanças do morro, mas como as terras onde o negro se escondia pertenciam a Manoel Fernandes, um fazendeiro tido como duro e implacável no seu modo de agir, eles refrearam os impulsos ambiciosos que os agitavam e, mesmo a contragosto, se aquietaram à espera dos acontecimentos.  

 

Acontece que a notícia também chegou à fazenda do capitão Corrêa. E tão logo chegou, na mesma hora este não pensou mais noutra coisa senão em colocar suas mãos no ouro de que todo mundo falava. Foi assim que na mesma noite ele saiu acompanhado de um grupo armado, chegou de surpresa à choça de Pedro, capturou seu ex-escravo e o levou amarrado para a fazenda, onde passou a torturá-lo a fim de descobrir a localização exata da mina. O coitado do prisioneiro suplicava para que o deixassem em paz, implorava aos torturadores que não o forçassem a falar, pois ele não podia revelar o segredo, mas tudo em vão, porque o suplício continuava intermitente, e foram tantas as chicotadas, as pancadas, as espetadelas com ponta de faca, que o preto não suportou mais as dores e resolveu confessar.

 

E contou que na última visita que fizera ao povoado ficara sabendo da morte de Alice. Nessa noite, em sua choça, perto da cascata, ele não conseguiu dormir. Inquieto, mexia-se na esteira para um lado e outro, hora após hora, quando lhe pareceu ouvir ao longe a voz da moça. Subitamente a porta do casebre tremeu, escancarou-se de uma vez, e em seguida um vulto de mulher passou flutuando pela abertura. Era Alice. Ele a reconheceu de imediato, mas não podia se mover do lugar onde estava porque parecia que mãos invisíveis o seguravam firmemente pelos braços, mantendo-o imobilizado. Mas ouviu a visão dizer claramente: "Pedro! Um dia, você me salvou. Eu lhe dei a liberdade, mas sei do seu sofrimento neste exílio maldito, e tudo por culpa da crueldade do meu pai. Mas não se assuste e me ouça. Não muito longe daqui, escondida nas entranhas da terra, existe uma grande jazida de ouro. Ela será sua, com a condição de que nunca revele sua localização. Porque se tentar fazer isso, a vingança do gênio protetor da mina cairá sobre sua cabeça, ouviu bem? Tenha cuidado. E agora, me acompanhe”.

 

Nesse momento, impaciente, o capitão gritou: “- Qual é o lugar do tesouro, negro maldito! Vamos lá, me diga logo aonde posso encontrá-lo!”. E Pedro, balbuciante, iniciou a revelação: "- Meu sinhô... Ele tá lá... ta lá pra a banda do...”. Mas não terminou a frase, porque caiu morto, fulminado.  E até hoje a localização da mina permanece desconhecida, apesar dos esforços feitos por muitos interessados em se apossar da fabulosa riqueza que dizem estar enterrada em terras de Ubatuba. Bom... o que se sabe é que fica nas proximidades do morro do Corcovado, o que já é alguma coisa para quem deseja ficar rico, muito rico, da noite para o dia.

 

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