N a Q - PROCISSÃO DAS ALMAS - Mariana - MG

Uma das atrações da Semana Santa de Mariana, em Minas Gerais, é a Procissão das Almas, manifestação que ocorre na madrugada da Sexta-feira da Paixão para Sábado de Aleluia. Nessas ocasiões, os moradores e visitantes vestem túnicas brancas e percorrem as principais ruas da cidade em procissão, revivendo uma antiga lenda local: a de que nesta época do ano os mortos deixam o cemitério em um cortejo fúnebre e vão até a igreja, passando por todo centro histórico do lugar.

 

A imprensa já deu várias versões para o fato, dizendo em uma delas, por exemplo, que “Fiéis de Mariana reviveram uma história de séculos atrás: a Procissão das Almas. Nos casarões históricos, a troca de roupas. Um figurino assustador. Nas mãos, ossos, caveiras. E pelas ruas da cidade, oração. De túnicas brancas e segurando velas, fiéis revivem uma história do século 18: ‘na noite da Sexta-Feira da Paixão, os mortos seguiam do cemitério até a igreja’. Moradores acompanham tudo. Seria um risco séculos atrás, pois a lenda diz que ‘uma mulher abriu a janela e recebeu uma vela acesa. No dia seguinte esta se transformou em osso. No fim da história, a mulher morre de susto”.

 

O que acontece em Mariana é mais ou menos isso, realmente, mas quando a versão dos fatos é dada por um dos marianenses mais antigos, fica-se sabendo que por volta de mil setecentos e tantos uma senhora de idade avançada tinha o hábito de ficar dependurada na janela de sua casa até tarde da noite, acompanhando curiosa e sozinha, no quase início das madrugadas frias, a passagem de quem se atrevia a ir ou vir pela rua onde morava. Até que em determinada ocasião ela percebeu uma estranha movimentação de pessoas dobrando a esquina mais próxima e avançando devagar em sua direção: era uma procissão, cujos integrantes, cobertos por roupas largas e brancas que iam da cabeça aos pés de cada um, e trazendo nas mãos uma vela acesa, caminhavam em silêncio no rumo aparente do templo das redondezas.

 

Ela estranhou a passagem daquele cortejo religioso, e àquela hora, porque sendo freqüentadora assídua das cerimônias eucarísticas, e dando-se muito bem com o padre que as realizava, nada ficara sabendo a esse respeito, uma omissão ou esquecimento para o qual não encontrava explicação. Além do mais, nesses dias, e pouco antes da hora marcada, os sinos da igreja costumavam repicar avisando os fiéis de que o momento da saída estava próximo, o que também não tinha acontecido. E para piorar ainda mais as coisas, na medida em que a procissão ia passando diante de sua janela, ela prestava mais e maior atenção, mas em vão, porque não conseguia reconhecer nenhum dos devotos.

 

Até que, de repente, uma das pessoas saiu da procissão, aproximou-se da janela onde a curiosa senhora permanecia estática, de boca aberta, e entregou-lhe uma vela, recomendando que esta deveria ficar bem guardada porque teria que ser devolvida na noite seguinte. E se foi, juntamente com a procissão, desaparecendo mais adiante no negrume da noite. Logo em seguida a vigilante senhora fechou a janela e foi dormir, mas assim que o dia amanheceu ela levantou-se, dirigiu-se ao oratório da casa para verificar se a vela continuava acesa, e quase desmaiou de susto ao constatar que, no lugar dela, dois ossos encontravam-se depositados sobre a toalha branca e rendada que cobria o móvel: um, de uma pessoa adulta, e outro, de uma criança.

 

Horrorizada, a velha senhora persignou-se e rezou o credo com devoção e fervor, repetindo esse procedimento algumas vezes durante o dia. Um longo dia, por sinal, mas que finalmente se foi, como é o destino inexorável de todos eles. E então, pouco antes da meia-noite, ela, trêmula de medo, devolveu os ossos e duas velas bentas à figura embuçada que lhe apareceu diante da janela, recebendo da mesma a seguinte recomendação: ”Que isto te sirva de lição, pois a Procissão das Almas não é para ser vista pelos viventes”.

 

Dizem que a Procissão das Almas, em Mariana, é baseada nessa lenda, e por isso os devotos que dela participam usam os mesmos trajes e aparatos descritos pela senhora que a presenciou.

 

A história de Mariana teve início no dia 16 de julho de 1696, quando o bandeirante Salvador Fernandes Furtado de Mendonça acampou nas margens de um ribeirão denominado do Carmo. Examinando melhor a região, ele e seus homens perceberam um pó amarelo no fundo e ao longo do curso d’água, e logo o identificaram como ouro. E constataram, a seguir, que o valioso minério era abundante em toda a área, razão pela qual ergueram ali uma capela, marco inicial da cidade então conhecida como Vila Real do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo, mas que em pouco tempo se tornaria famosa, transformando-se poucos anos depois (1711), em capital da então Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, criada dois anos antes, condição que perdeu para a Vila Rica de Albuquerque, hoje Ouro Preto, em 1720. O nome atual, Mariana, foi dado em 1745. quando a elevaram à condição de cidade, a primeira de Minas, da qual se diz que seu conjunto arquitetônico “(...) foi desenhado pelo poder do ouro, do Estado e da fé. Em suas paredes, tetos e ornamentação, está impregnado um complexo jogo de interesses, daqueles que sempre estiveram intimamente ligados às relações humanas. Em Mariana uma sociedade queria nascer e conseguiu. Os sobrados, as igrejas, as ruas, chafarizes, as montanhas perfuradas... são testemunhas disso!”.

 

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