R a U - TESOURO DA FAZENDA ASSOMBRADA, O - Carandaí - MG
O município de Carandaí, em Minas Gerais, é cortado pela antiga Estrada de Ferro Central do Brasil e rodovia BR-040. Distando 137 quilômetros de Belo Horizonte, capital do Estado, sua sede está situada a 1057 metros acima do nível do mar, o que lhe confere temperaturas agradáveis, com médias anuais mínimas de 15°C e máximas de 27°C.
O povoado de Carandaí surgiu por volta de 1872. Segundo os registros históricos disponíveis, quando Francisco Rodrigues Pereira de Queirós, futuro barão de Santa Cecília (o título lhe foi concedido em julho de 1874) tomou conhecimento de que o governo imperial projetava construir uma ferrovia ligando a capital mineira ao Rio de Janeiro, tratou de comprar terras em um lugar chamado Morro, naquela região, e ali construiu uma capela e dois sobrados, iniciando dessa forma um núcleo urbano. Também em 1872 a localidade de Ressaca foi elevada à categoria de freguesia, mas quatro anos depois (1876), a sede da mesma foi transferida para a nova localidade do Morro, propriedade do barão, que recebeu nessa ocasião o nome de Santana de Carandaí. Anos depois, em 28 de outubro de 1881, ali foi inaugurada a estação da Estrada de Ferro Pedro II (ilustração abaixo), que depois viria a ser chamada Estrada de Ferro Central do Brasil. Finalmente, em 7 de setembro de 1923, efetivou-se a criação do município de Carandaí, desmembrado do de Barbacena.
Carandaí é atravessada por um trecho da Estrada Real, nome dado aos caminhos trilhados pelos colonizadores desde a descoberta do ouro em Minas Gerais, até o período de sua exaustão. Segundo o site www.descubraminas.com.br, um passeio nessa estrada é “um retorno ao tempo dos tropeiros que chegavam em seus cavalos e dos adultos e crianças que faziam festa com a chegada da tropeirada. (...) São muitos os trechos que podem ser percorridos na Estrada Real, e cada roteiro esconde tesouros históricos, culturais e de belezas naturais. Nessas trilhas, homens e mulheres de variada ordem buscaram espaços de sobrevivência e de produção de bens, e na busca construíram vida, memória e história”.
Uma dessas histórias diz respeito ao Tesouro da Fazenda Assombrada de Carandaí. Segundo tal lenda, há muitos e muitos anos um homem de nome Otávio resolveu abandonar sua terra natal e sair pelo mundo em busca de melhores condições de vida. E uma vez decidido a transformar esse projeto em realidade partiu caminhando pela antiga Estrada Real, tendo no pensamento a idéia fixa de que se entregaria sem hesitação ao destino que lhe estivesse reservado, fosse ele bom ou ruim, pouco importava. E foi convencido dessa certeza que o moço percorreu algumas léguas em passo cadenciado, até que ao se ver diante de um casarão colonial com sinais evidentes de prolongado abandono, achou que já era hora de parar para comer alguma coisa, pois a fome começava a incomodá-lo. Ele já tinha ouvido comentários sobre aquela fazenda sem moradores, e todos diziam que a propriedade não era apenas mal-assombrada, mas que nela muitas mortes misteriosas também haviam ocorrido. Por isso os que conheciam a má fama que a cercava tratavam de evitá-la o mais que podiam.
Mas Otávio não se preocupou com isso. Ajeitou-se sob a sombra de uma árvore, buscou algumas pedras e com elas improvisou um fogão, no qual colocou capim seco e gravetos que havia juntado. Em seguida acendeu o fogo, espetou numa vareta um pedaço da lingüiça de porco que trouxera na capanga, e se apressou em assá-la, sem perceber que um sorrateiro gato preto se aproximava às suas costas. Pronta a comida, ele a retirou do fogo e a colocou sobre um pano no chão, para esfriar, enquanto preparava um novo pedaço. Foi nesse momento que o gato preto, num bote rápido, abocanhou a lingüiça assada e desapareceu com ela dentro da escuridão.
Enraivecido, o rapaz xingou o animal durante alguns segundos, mas como nada podia fazer para recuperar o alimento, e além do mais continuava com fome, conformou-se em preparar o outro pedaço de lingüiça que separara. Daí em diante, o que acontecera alguns minutos antes voltou a se repetir, e quando o gato, pela segunda vez, fugiu apressado levando o petisco na boca, Otávio logo imaginou que ele surgiria novamente, pois a sabedoria popular ensina acertadamente que cesteiro que faz um cesto faz um cento. Então ele preparou e armou um laço, assou um terceiro pedaço de lingüiça, colocou-o sobre o pano, e assim que o felino chegou para pegá-lo, foi apanhado na armadilha, amarrado firmemente e colocado dentro de um saco que o rapaz deixou amarrado e de boca fechada em uma moita bem distante do lugar onde estava.
Então, tranqüilo, ele preparou sua refeição, e depois de alimentado deitou-se na relva macia imaginando que desfrutaria de uma boa noite de sono. E logo adormeceu, de fato, mas foi despertado pouco depois pelo barulho que faziam os tamancos de uma senhora idosa e branca como a neve, que caminhava em sua direção. Ela aproximou-se de Otávio, que permanecia paralisado pela surpresa daquela aparição, e lhe disse:
- Não tenha medo, meu filho, porque não vou lhe fazer mal algum. Não sou deste mundo, e sempre que venho aqui para pedir ajuda a algum passante, o demônio aparece disfarçado de gato preto e mata a pessoa com quem desejo falar. Mas você demonstrou que é forte, pois conseguiu vencê-lo. Por isso, me acompanhe, por favor.
A alma da velha senhora levou Otávio até uma grande figueira, e apontando para o chão voltou a falar:
- Exatamente aqui três baús foram enterrados, todos eles cheios de moedas de ouro. Escave até encontrá-los, e quando isso acontecer, fique com a terça parte do seu conteúdo e distribua o restante aos pobres, para que eu possa entrar no céu. Desde que morri, já lá se vão dois séculos, tenho andado pelo mundo sem salvação, por causa dessa riqueza enterrada. Faça, pois, o que lhe digo, e me dê a paz eterna.
O rapaz se pôs a cavar, e quando encontrou o primeiro baú, a alma da velha senhora desapareceu. Na mesma hora, o gato estourou dentro do saco amarrado à moita, um galo cantou ao longe, logo acompanhado por outro, e outro e mais um outro. No céu, os primeiros clarões avermelhados do sol anunciavam que um novo dia estava chegando, mas antes que isso acontecesse, Otávio desenterrou os três baús, voltou com eles para casa e tratou de cumprir o compromisso que assumira com a velha senhora. Foi dessa forma que ele se tornou um dos homens mais ricos de Carandaí.





