E a H - GUARANÁ - Amazônia
O guaraná é um arbusto trepador que ocorre em algumas regiões do Amazonas, e seu fruto transforma-se em uma cápsula quase preta, quando fica seca. Ele tem lugar de destaque entre as plantas nativas cujas virtudes terapêuticas já eram conhecidas pelos índios brasileiros antes do descobrimento, e que estes revelaram aos colonizadores.
Os pajés o receitavam aos doentes em forma de beberagens diversas, mas a tribo inteira o consumia não só como alimento, mas também como energético contra o cansaço, sempre que os trabalhos eram pesados e prolongados. O grande apreço em que os índios o tinham caracterizou-se pela atribuição de diversas virtudes sobrenaturais ao vegetal.
Sobre sua origem diz-se que em uma aldeia dos índios Maués morava um casal cujo filho único era muito estimado pelos que o conheciam por ser uma criatura de boa índole, alegre e prestativo. Isso fazia crescer a convicção de que o futuro menino era bastante promissor, e que ele, quando se tornasse adulto, certamente se tornaria um grande chefe guerreiro. Por essa razão Jurupari, o deus do mal, ficou com muita inveja dele, e daí a sua decisão de matá-lo. E para concretizar sua intenção a entidade maligna transformou-se numa enorme serpente, que aproveitando a distração do indiozinho quando ele estava colhendo frutas na floresta, o atacou e matou.
Na aldeia os pais do menino esperavam por seu retorno sem imaginar o que tinha acontecido. Aguardaram o dia inteiro, até que o sol se foi, a noite chegou, e a lua começou a iluminar a floresta com sua luz brilhante. Nessa altura todos os índios da tribo já não conseguiam esconder a preocupação, e por isso quase todos se embrenharam na mata, à procura do desaparecido. E quando finalmente o encontraram morto, uma grande tristeza tomou conta do coração de cada um dos seus amigos, que choraram amargamente o acontecido, lastimando a má sorte da criança.
Foi nesse instante que uma chuva torrencial desabou na região e um raio caiu bem perto do corpo estendido no solo. Nesse momento, a índia mãe falou: “É Tupã, o rei do trovão, que se compadece de nós. Ele deseja que enterremos os olhos do meu filho, para que nasça aqui uma fruteira que só nos trará felicidade”. E assim eles fizeram. Dias depois nasceu ali uma plantinha que os índios não conheciam, e as sementes negras dos seus frutos eram rodeadas por uma película branca que dava a elas a aparência de um olho humano. Era o guaraná.
Uma outra lenda conta que Cereçaporanga, uma índia belíssima, era protegida por Jaci, a deusa da beleza que protegia as pessoas dando-lhes formosura e vida longa. Mas um dia Cereçaporanga apaixonou-se por um jovem guerreiro de uma tribo inimiga, e com ele fugiu. Inconformados, os índios de sua taba perseguiram o casal, para tentar convencer a jovem a retornar ao meio dos seus. Sabendo disso, Cereçaporanga não hesitou: propôs um pacto de morte ao seu amado, pois ela sabia que caso fossem alcançados, ele seria trucidado pelos homens de sua tribo. Por isso os dois se mataram junto a um pé de carapanaúba, a que os nativos também dão o nome de árvore-dos-mosquitos e árvore-de-carapanã . Quando os guerreiros chegaram e viram que ela estava morta, ficaram muito tristes e por isso imploraram à deusa Jaci que em hipótese alguma permitisse que o espírito de Cereçaporanga os abandonasse.
Comovida, Jaci, fez nascer dos olhos da índia morta uma planta cujas sementes lembram perfeitamente, quando amadurecidas, um par de olhos negríssimos. Essas sementes, tomada em chás e infusões ou trituradas, dariam aos irmãos de Cereçaporanga uma grande vitalidade, sendo além de tudo um alimento que lhes daria energia para torná-los fortes em suas guerras e caçadas. Essa árvore teria a beleza física da bela índia e vida mais longa que a vivida por ela.





