I a M - LENDA DA MANDIOCA - Amazônia

A mandioca é um arbusto herbáceo muito disseminado pelos países tropicais e subtropicais, cujas raízes em tubérculos cilíndricos alongados permitem a extração de uma farinha que constitui o alimento principal de boa parte da população brasileira. Essa farinha, quando misturada com a de trigo, serve para produzir pão, e com a fécula, conhecida como polvilho, preparam-se diversos pratos típicos, como os beijus, biscoitos e a tapioca, muito nutritiva e recomendada para crianças e adolescentes. As raízes também dão álcool e cauim, bebida fermentada preparada pelos índios.

 

A lenda indígena sobre o aparecimento da mandioca diz que em uma certa tribo a filha mais nova do cacique ficou grávida, e o fato do pai dessa criança não ser conhecido entristeceu demais o chefe da aldeia porque ele alimentava a esperança de que a moça viesse a se casar com um guerreiro forte e respeitado. Mas nessa mesma noite o cacique sonhou com um homem branco, e este lhe dizia que sua filha não o enganara, que ela continuava sendo pura como quando nascera. Por isso o índio colocou a tristeza de lado, alegrou-se novamente e voltou a tratar a jovem com o mesmo carinho que antes lhe dispensava. Meses depois nasceu o bebê esperado, uma menina que além de muito bonita tinha sua pele branca e delicada. Ela recebeu o nome de Mani, e na medida em que crescia demonstrava ser muito alegre e inteligente, razão pela qual todos na tribo a admiravam. Mas em uma certa manhã a criança não acordou de manhã bem cedo como costumava fazer, e quando sua mãe foi verificar o que tinha acontecido, encontrou-a morta na rede.

 

A menina foi enterrada bem perto da maloca onde morava, e todas as manhãs sua cova era regada pelas muitas lágrimas de saudade que a mãe desconsolada derramava sobre ela. Até que um dia perceberam que uma planta estranha havia nascido no local, uma variedade diferente e desconhecida dos indígenas, mas que apesar disso passou a ser cuidada pela mãe de Mani. A plantinha cresceu, e em certo momento notaram que a terra à sua volta estava rachando: por isso a índia começou a cavar o chão com as mãos, pensando que sua filha voltava à vida. Mas encontrou apenas raízes grossas e com massa branca como leite, e essas, depois de algum tempo, se transformaram em alimento valioso para todas as tribos indígenas. Agradecidos os índios trataram de batizar a nova planta com o nome de mandioca, cujo significado é Casa de Mani.

 

Durante dez meses Karl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), médico, botânico, antropólogo e um dos mais importantes pesquisadores alemães que estudaram o Brasil e especialmente a região da Amazônia, permaneceu na região norte do país, tempo suficiente para colher material destinado a enriquecer sua famosa obra Flora Brasiliensis, onde ele asseverou que a mandioca, amarga ou doce, e outras plantas mais, como o milho, várias espécies de batatas, o cará, a taioba, o amendoim, o mamoeiro, a bananeira, a goiabeira, o cajueiro, a cabaceira, o algodoeiro, o urucuzeiro e os pinhões, são “oriundas do Jardim do Éden”. Permanecendo até hoje como insumo básico da comida típica da região amazônica, é natural que em torno dela existam outras várias lendas, que se tornaram conhecidas graças a pesquisadores como Barbosa Rodrigues, Pirajá da Silva, Alexandre Rodrigues Ferreira, Arthur Neiva, Roquete Pinto e o Marechal Cândido Mariano Rondon. Como a da Primeira Água, da mitologia da tribo Maué, na qual se assegura que a planta da mandioca teria sido formada pelo corpo de Iveroi, mulher do sapo Ó-Óc. Ao vê-la morta pelas artes mágicas dos feiticeiros Muricariua, seus tios a transformaram em mandioca doce. Segundo a mesma lenda, os tios de Iveroi teriam feito a tapioca do feto que ela guardava nas entranhas.

 

Já nas histórias contadas pelos anciãos da tribo Pariqui, encontra-se a lenda conhecida como Moytima Uipurangaua (Origem da Plantação), que fala do nascimento de todas as plantas, principalmente da mandioca, que teriam se originado dos ossos do mais belo espécime humano daquela tribo, chamado Yacurutu. Entre os Mura, a mandioca proviria do corpo da irmã de Yacurutu, chamada Jati, que morrera revoltada contra a Tartaruga, a serviço de uma terrível Piaga, que a afogou. Para os Kêterêkô, povo Pareci, a mandioca surgiu do corpo da formosíssima jovem Atiôlo, em cujos longos cabelos o Uiarapuru vinha aninhar-se para passar a noite e, antes do primeiro raio de sol, acordar a natureza com a sinfonia de seu canto. Mas como tudo passa sobre a terra, Atiôlo ou Mani um dia morreu e de seus restos mortais surgiu a mandioca.

 

A história registra que Colombo e Diogo Alvares Correia, o primeiro quando aportou nas Antilhas em 1498, e o segundo quando naufragou na Baía de Todos os Santos, em 1510, conheceram a mandioca. Dizem que Cristóvão Colombo a provou e aprovou, chamando-a, porém, de farinha de pau. Por sua vez, o frei João Daniel colheu entre os indígenas do Pará, uma sentença sobre a mandioca, que mais tarde se tornou adágio popular. Diz ela o seguinte: “Planta-me no pó e de mim não tenhas dó”. traduzindo bem a rusticidade da planta sob o céu dos trópicos.

 

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