I a M - MINGUSOTO - Joćo Pessoa - PB

No folclore paraibano o Mingusoto é o fantasma que escolheu João Pessoa, capital do estado, como um dos seus recantos prediletos. Segundo se acredita, ele é o senhor de muitas coisas: das matas, dos mares, dos rios, dos depósitos de água subterrâneos, mas apesar disso tem o costume de atemorizar as pessoas com os gemidos que vai deixando escapar durante suas andanças solitárias, interrompendo o silêncio da noite e fazendo nascer a intranqüilidade, o sobressalto e o medo no peito daqueles que o ouvem a contragosto.

 

Dizem, também, que o Mingusoto cultiva o hábito de abrir as portas das igrejas no início das madrugadas iluminadas pela Lua, organizando lentas procissões que surgem com seus pálios e bandeiras sem que se saiba de onde vieram, para desaparecer logo depois, não deixando qualquer rastro de para onde foram. Muitos garantem que ele tem como residência as igrejas de São Bento e São Francisco, na capital paraibana, e que se materializa no leão de bronze (ilustração acima) ou no galo de ferro que encimam, respectivamente, as torres dos dois templos católicos. Se é verdade, ninguém sabe.

 

E não sabe porque ele jamais foi visto, não tem forma conhecida, o que não impede que seja tido pelos paraibanos como criatura aterradora, especialmente os que vivem na capital. “Nada exige, mas amedronta”. Quem faz tal afirmativa é o historiador André Vidal (1900-1986), autor de artigos publicados em jornais e revistas, além de livros, entre os quais Lendas e Superstições, 1950, no qual relacionou alguns mitos da sua terra natal (Mingusoto, Cotaluna e Flor de Maio são os mais importantes). É ele quem esclarece: “Interessante é que não se conhece a sua forma de gente. Nem mesmo se desconfia dela. Pelo nome é que conclui parecer mais de homem que de mulher”. Daí que não há registro de atividades características do Mingusoto, justamente porque ninguém sabe como ele é, ou se tem alguma semelhança física com o homem.

 

No documentário sobre essa criatura fantástica, incluso em Geografia dos Mitos Brasileiros, de Luís da Câmara Cascudo, está dito que ninguém sabe como tudo começou, mas apenas que Mingusoto existe. “É invisível, é imponderável, vive em todo o canto e por toda parte. Tem um poder apocalíptico”. E o mesmo texto revela:

 

“Existe na praia de Camboinha um famoso ‘cajueiro do Souto’. Dizem que foi Mingusoto que o plantou. O seu tronco, na verdade, é secular. Ninguém toca no referido cajueiro para fazer mal. Apenas os seus frutos são colhidos para comer. Os cajus são doces – e de tão doces são conhecidos pela gente que no fim do ano vai passar a Festa nas praias. Mingusoto tem mesmo poderes apocalípticos, deve-se repetir. À noite, seus gemidos são percebidos ao longe num tom de melancolia bem sentida. Se confundem com as ondas rumorosas de Tambaú. Parece que o barulho vem do fundo móvel do oceano. E então se mistura com os ruídos das matas da Penha. Pela madrugada, na cidade, se ouve essa manifestação de dor que emociona”.

 

No relato dos cronistas do século 19, a presença de Mingusoto era sentida, e não vista, em muitos pontos da cidade. Diziam eles que na antiga rua da Baixa (hoje parte da rua Duque de Caxias), trecho em declive entre a igreja da Misericórdia e atual avenida Guedes Pereira (antiga ladeira do Rosário), um rio subterrâneo de águas rápidas passava por ali, e que na quietude das horas de descanso, quando o manto do silêncio agasalhava o repouso dos cidadãos, os gemidos lúgubres da criatura fantástica erguiam-se da correnteza dominada por ela, chegavam à superfície do solo e dali viajavam pelos ares recifenses, levando aos humanos o medo daquilo que não se conhece, que não se avista, mas que se sente estar à nossa volta.  Da mesma forma como se afirmava que na antiga rua Direita, hoje também integrada à rua Duque de Caxias (trecho do Largo do São Francisco à Igreja da Misericórdia), o fantasma desconhecido passava em um carro de boi cujas rodas gemiam lamentosamente, clamando por algo que pessoa alguma poderia atinar com o que fosse.

 

Quanto às igrejas – como na do Carmo, por exemplo - relatavam que no início da madrugada já se tinha visto suas portas abertas “para uma procissão disciplinada onde só se notava o gemido lento do personagem mitológico. O São Francisco, tão misterioso à luz da lua, apresenta as suas sombras que escondem o ser quimérico da cidade. Outras vezes essas procissões teriam sido ruidosas. As janelas das casas não se abriam. Ninguém via nada, mas tudo sentia. A voz do Mingusoto era domínio, era ação de um medonho terror. Causava pavores extraordinários na população escondida nas casas. O ente humano que estivesse na rua, numa hora assim, ficara estarrecido, imóvel como uma estátua, à passagem de crentes cantando ladainhas com uma voz só. E logo aquilo se sumia, diluindo-se”.

 

Outros textos garantem que quando não há lua ele costuma aparecer no rio Jaguaribe, e é por essa razão que os banhistas de horas impróprias só mergulham naquelas águas em noites que perdem seu negrume diante da claridade esplendorosa do luar, mas mesmo assim com a necessária cautela, com os devidos cuidados, “pois o ruído angustioso vem da mata, e no ar fica qualquer coisa de ameaça”, dando a entender que algo está para acontecer. Diz-se, ainda, que Mingusoto vive na mataria próxima à bica de Tambiá (guerreiro indígena ali executado e chorado durante cinqüenta luas por Aipré, sua esposa da morte, cujas lágrimas deram origem àquela fonte), e que esta sempre foi a sua verdadeira residência.

 

Segundo Câmara Cascudo, “A verdade é que Mingusoto infunde pavores incríveis. Ele é autor e responsável por todos os grandiosos e soturnos barulhos da noite. Houve o tempo em que até a cidade nem precisava ser policiada porque os ladrões de galinha só furtavam de dia por causa do medo noturno do fantasma do mar, das matas e dos rios paraibanos. Sua força não se explica, de tão poderosa que é. E da classe média para baixo, a existência desse mal-assombrado não se discute. Até mesmo entre os importantes a sua autoridade não é lá muito desconhecida”.

 

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