I a M - LENDA DA PERNA CABELUDA, A - Recife - Pernambuco

A lenda da Perna Cabeluda surgiu em Recife, Pernambuco, na década de 1970, sem que ninguém saiba precisar quando isso realmente aconteceu. Afinal de contas, lenda é lenda, não tem pai, nem mãe, nem certidão de nascimento, nada, afinal, que possa comprovar quando, onde e como começou a ser falada. Apenas aparece, vai aos poucos se tornando conhecida de mais e mais gente, e quando menos se espera lá está ela incluída no folclore de algum lugar. Pois a história da Perna Cabeluda passou pelo mesmo processo de divulgação popular, foi mencionada em letras musicais, serviu de tema em literatura de cordel e filme, comentada em rádio e serviços de alto-falante, ganhou fama e tornou-se conhecida. Resumindo, caiu na boca do povo.

 

Muitas são as explicações sobre a origem da lenda. Uma a vincula ao achado de uma perna humana cabeluda que se encontrava boiando no rio Capibaribe, caso que por não ter sido solucionado pela polícia transformou-se em prato cheio para a imprensa. Que inicialmente alimentou a esperança de encontrar alguém capaz de clarear o assunto, e por isso perguntou em suas páginas: De onde veio a perna? De quem era ela? Como foi parar no rio? Quem a amputou? Mas em vão...

 

Surgiu então a proposta da criação de versões fantasiosas, sensacionalistas, porque, afinal de contas, o jornal precisava atrair a atenção de alguma forma, para poder vender seus exemplares. Foi quando se começou a dizer que a perna mal-assombrada corria atrás das pessoas nas ruas da capital pernambucana, tudo avalizado pelo depoimento de testemunhas que afirmavam terem sido perseguidas por ela. E assim continuou sendo feito por algum tempo, até que a brincadeira cansou, e com isso os relatos sobre a perna cabeluda foram suspensos. Mas o povo não a esqueceu porque os guardiões das idéias, artistas e escritores, em geral, mantiveram-na viva na memória dos recifenses.

 

Bráulio Tavares, natural de Campina Grande, Paraíba, escritor, poeta, compositor, roteirista e colunista de renome, dá uma outra versão ao assunto: Diz ele, em seus escritos, que:

 

“Entre as lendas urbanas mais curiosas do Nordeste está sem dúvida a da Perna Cabeluda, uma entidade sobrenatural que teria assombrado as ruas do Recife durante a década de 1970. Aparecendo onde menos se esperava (e por falar nisso, onde é que alguém esperaria que aparecesse?), esta criatura era o oposto-simétrico do Saci Pererê. Ou seja, era uma perna-sem-pessoa, em vez de uma pessoa-sem-perna. Surgia pulando (eu já ia dizer pulando num pé só), atacava os transeuntes, dava chute em todo mundo, e depois fugia pulando. Foi cantada em verso e em prosa. Apareceu como protagonista em folhetos de cordel como A Perna Cabeluda de Tiúma, São Lourenço de José Soares, inclusive um em que ela enfrentava outra criatura mítica, A Véia Debaixo da Cama e a Perna Cabeluda de José Costa Leite. Apareceu também em um vídeo de Marcelo Gomes, A Perna Cabeluda (1995). Figurou em shows de Chico Science & Nação Zumbi: Chico dançava com uma perna de pano estufada, e depois a jogava no meio da platéia. Eu próprio a utilizei como tema num curta para TV de 40 minutos para o programa Viva Pernambuco, em 1996, dirigido por Romero de Andrade Lima e Cláudio Assis".

 

“A Perna Cabeluda é um bom exemplo de como surgem essas criaturas folclóricas. Uma vez eu estava em Recife conversando com o escritor Raimundo Carrero, que me deu uma versão para o surgimento dessa lenda. Ele e Jota Ferreira tinham um programa de rádio (pelo que me lembro ele era redator e Jota Ferreira o apresentador, mas posso estar enganado). E uma noite, entre uma música e outra deram uma notinha humorística, mais ou menos assim: ‘Pois é, meu amigo, a vida no Recife não anda nada fácil!… Chega agora à nossa redação a notícia de que Fulano de Tal, guarda-noturno, chegou em casa depois de uma jornada de trabalho e deitou-se para dormir ao lado de sua esposa. Ouviu um barulho, e ao olhar para baixo viu uma perna cabeluda embaixo da cama!’".

 

“A intenção era sugerir, com a imagem da perna cabeluda, a presença do urso, do amante da esposa. A nota provocou muitos risos, e no dia seguinte, eles voltaram à carga. ‘E atenção, minha gente… Sicrano de Tal, morador da Imbiribeira, chegou em casa de viagem, e para sua surpresa viu a perna cabeluda fugindo pela porta da cozinha!’. E aí não parou mais. Usada inicialmente como uma sinédoque visual (a parte pelo todo), a perna acabou ganhando vida própria. Isto não quer dizer que qualquer coisa inventada vire automaticamente uma lenda. Neste caso específico, virou porque a imagem resultante ficou ao mesmo tempo absurda e engraçada, ou pelo menos assim pareceu à galera onde a história começou a circular (ouvintes de rádio dos subúrbios recifenses). Imagens e figuras semelhantes são lançadas diariamente no caldeirão cultural. É um processo aleatório. Umas pegam, outras não. ‘Cultura popular’ talvez se defina por este aspecto aleatório, onde não se pesquisa, não se planeja, e as criações dão certo meio que por acaso”.

 

E assim a história continua sendo narrada aqui, ali e acolá, e cada vez que isso acontece o mito da Perna Cabeluda aumenta um pouquinho mais.

 

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Comentários:

  1.   Mateus diz:

    essa e historia muito engraçado pois minha mãe contava para min ,para que eu não sai se de casa. hoje já estou grande e me lembro desse historia que causou um grande alvoroço na época.