I a M - JOÃO GALAFUZ - Pernambuco
O jornal Folha da Manhã, de Recife, publicou em 16 de dezembro de 1951, dia do centenário de nascimento de Francisco Augusto Pereira da Costa (1851-1923), fundador da Academia Pernambucana de Letras e membro de várias instituições brasileiras, como os Institutos Histórico e Geográfico de Alagoas, Ceará, Paraíba, Bahia e São Paulo, entre outras, um artigo de Luís da Câmara Cascudo homenageando o autor do Folclore Pernambucano, publicado em 1908 pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
Disse o articulista (e também emérito folclorista): “Imagino Pereira da Costa arrumando suas notas sobre as superstições populares, perguntando sobre o lobisomem, sobre os feitiços. As tradições eram apenas motivos literários, para poemas e sonetos, para uma pincelada discreta e fácil de cor local. Ninguém as fixava, em conjunto demoradamente, passando duma a outra seção, como fez o velho e grande mestre pernambucano. As superstições populares, a poesia do povo, o romanceiro, o cancioneiro, os pastoris, as parlendas e brincos infantis, a miscelânea, as 380 quadrinhas foram os resultados dessa pesquisa”.
Ao registrar uma das histórias populares anotadas nessa sua pesquisa, Pereira da Costa esclareceu que o “nome com que a superstição popular designa uma espécie de duende que dizem aparecer em certas noites, emergindo das ondas ou surgindo dos cabeços de pedras submersas como um facho luminoso e multicor, prenúncio de tempestade e naufrágios, crença essa dominante entre os pescadores e homens do norte do estado de Pernambuco, e principalmente de Itamaracá, dizendo-se que esse duende marinho é a alma penada de um caboclo que morreu pagão, acaso conhecido por João Galafuz”.
Sobre esse mesmo assunto, Luís da Câmara Cascudo, em Geografia dos Mitos Brasileiros, afirma que Galafuz “é um fogo-santelmo, arauto sinistro de mortes e tormentas, emergindo do meio do Mar Vago, azulado e alto, brilha pelos rochedos, subindo aos picos, correndo nas ondas, clareando a prata das espumas, para apagar-se, brusco, como o próprio mistério que representa dentro da noite tropical”. Mas diz, adiante, que o fenômeno se trata do fogo-fátuo.
O fogo-de-santelmo, conhecido desde a antiguidade, é produzido por descargas elétricas na extremidade dos corpos verticais, como, por exemplo, no topo dos mastros dos navios, enquanto o fogo-fátuo, uma luz azulada que pode ser avistada em cemitérios, pântanos, brejos, beira de lagoas, rios, ilhas, locais em decomposição, regiões ricas em material orgânico etc., é a inflamação espontânea do gás dos pântanos (metano), resultante da decomposição de seres vivos: plantas e animais típicos do ambiente. O CUB – Centro de Ufologia Brasileiro (www.cubbrasil.net), ensina que:
“Quando um corpo orgânico começa a entrar em putrefação, ocorre a emissão do gás metano. O metano, em condições especiais de pressão e temperatura, em local não ventilado, começa a sair do solo e se misturar com o oxigênio do ar. Em uma porcentagem de aproximadamente 28%, o metano se inflama espontaneamente, sem necessidade de uma faísca. Forma uma chama azulada, de curta duração, gerando um pequeno ruído. Os fogos-fátuos são, portanto, produtos da combustão do gás metano gerado pela decomposição de substâncias orgânicas, ou a fosforescência natural dos sais de cálcio presentes nos ossos enterrados".
E complementa a informação afirmando que “muitos dos que avistam o fenômeno tendem a fugir do local rapidamente, o que, devido ao deslocamento do ar, faz com que o fogo-fátuo mova-se na mesma direção da pessoa. Tal fato leva muita gente a acreditar que o fenômeno se trata de um evento sobrenatural, tais como espíritos, fantasmas, ovnis, dentre outros”.
Os fogos fátuos dão origem a inúmeras superstições populares. Em algumas regiões do Brasil se acredita que eles sejam espíritos malignos que molestam ou fazem os viajantes perderem o caminho certo de casa, enquanto em outras eles são considerados como presságios de morte ou desgraças. No estado de Alagoas, por exemplo, a mesma figura fantástica é descrita da seguinte forma por Alfredo Loureiro Brandão (1874-1944), historiador e médico-militar português, em Os Negros na história de Alagoas:
“A lenda de João Galafuz, prendendo-se talvez à luminosidade da água do mar, lenda que o dr. Pereira da Costa descreve no seu folclore pernambucano, é aqui, em Alagoas, alterada na história de João Galafoice, o qual seria um negro que nas trevas da noite agarrava os meninos que andavam fora de casa”.
O poeta e escritor Osvaldo Orico (1900-1981), manifestando-se sobre a divulgação dessa lenda no sul do país, sustenta:
“(...) a ciência, que não gosta de contato com a ilusão, explica a chama lendária do gaúcho como sendo apenas o fogo-fátuo, produzido pela enorme quantidade de fósforo existente nas ossadas dos animais dispersos por todo o pampa. São esses fogos fátuos desprendidos dos lugares pantanosos, das coxilhas onde há animais decompostos, nas estrumeiras, nos campos de folhagens apodrecidas, grandes geradores de lendas. Gustavo Barroso nos apresenta vários casos: a gente do País de Gales tem o seu Jack with a lantorn (Jack com uma lanterna) e atribui-lhe a intenção de espírito com o mau vezo de ensinar caminho errado aos que se perdem por lezírias e prados; em Sergipe, não se sabe por que motivo, há o Jan de la foice ou Jan de Dela fosse; o budismo nipônico admite entre os seus gakis, o Shinen-Gakt, que aparece de noite, sob a forma de fogo errante”.
E justifica historicamente o caso remontando aos celtas, que tinham o fogo dos druidas, à antiguidade clássica, onde se vai encontrar o fogo de Helena, transformado em Santa Helena, e, por fim, em Sant’Elmo.





