Invenções - BARALHO
Jogos à parte, com o baralho a cigana prevê o futuro, o mágico faz seu espetáculo, o educador ensina; o psicólogo aplica testes. Há o baralho de 40 cartas, em que o valete é maior do que a dama, e o de 52 cartas, que é o tipo mais comum. Dados confirmados afirmam que três quartos da humanidade usam algum tipo de baralho, para algum fim. Mas, afinal, como tudo isso começou? Existem várias opiniões a respeito, e uma delas atribui o seu aparecimento a um francês que procurara aliviar a melancolia do rei Carlos VI, da França (1368-1422). Porém, a descoberta de vários documentos provou que o uso das cartas de baralho era anterior ao nascimento do referido soberano, pois ele já era conhecido no Oriente desde muito tempo.
Daí que para saber onde o baralho foi criado você pode escolher uma dessas quatro hipóteses: o imperador chinês, o faraó egípcio, o xeique árabe ou o marajá indiano. Agora, para descobrir como ele chegou a Europa, são mais três opções: o guerreiro sarraceno, os cruzados ou o aventureiro cigano. Muito bem! Com qualquer uma delas você estará certo, pois o baralho, na verdade, surgiu com formas diferentes e em diferentes épocas e culturas, tendo chegado à Europa também por mãos diferentes. Segundo velhos relatos chineses, ele teria sido inventado pelo imperador Sehun-Ho para agradar uma de suas namoradas, mas não há unanimidade quanto a isso.
Mesmo não havendo consenso quanto ao quando e quem, não existem muitas dúvidas sobre o passado religioso das cartas, já que o antigo baralho indiano, por exemplo, tinhas dez naipes, cada um representando uma das dez encarnações da entidade Vishnu, o deus preservador do universo que junto a Shiva e Brahma forma a tríade divina do hinduísmo. Sua ligação com o sobrenatural também fica clara quando surgem dados históricos como os levantados pela pesquisadora Catherine P. Hargrave, que em 1930 publicou a História do Jogo de Cartas, dizendo nela que no século 14 os soldados sarracenos introduziram no sul da Itália um jogo de baralhos chamado naib (feitiçaria, em hebreu), sendo essa, possivelmente, a origem da palavra naipe em português e espanhol.
Religioso ou não, quando o baralho chegou à Europa, entre os séculos 13 e 15, encontrou os dados (feitos em pedra ou osso), que já eram conhecidos em diversos países, juntando-se a eles para satisfazer o prazer humano pelo jogo. E se conquistava cada vez mais adeptos certamente era pelo fascínio que possuía. A partir daí começaram a chegar em terras européias os baralhos chineses ou indianos com 56 cartas numeradas de um a dez e agrupadas em quatro naipes, como nos baralhos de hoje, alem das quatro figuras: o rei, a rainha, o cavaleiro e o pajem. Foi então que surgiu na Itália o primeiro baralho fabricado na Europa (o Tarô), contendo, como ainda acontece nos dias de hoje, 22 cartas, das quais 21 numeradas em algarismos romanos e representando as forças naturais, os vícios e as virtudes da humanidade. A restante, chamada il matto (o louco, em italiano), figurava a liberdade, não tinha número e acabou dando origem aos coringas de hoje. Entre os anos de 1300 e 1400 os europeus juntaram as 56 cartas do baralho asiático às 22 cartas do tarô, e com elas passaram a jogar o chamado Tarocchi, muito popular na Itália da época, mas denominado Tarau, na França, e Tarok, na Alemanha.
Em seus primeiros tempos o baralho era um passatempo para poucos, já que as figuras elaboradas e pintadas à mão o tornavam muito caro. E para os que admitem que ele vem do xadrez, é deste, realmente, que provém as feições clássicas das cartas de jogar, todas partidas ao meio, em bustos. Apesar de importado do Oriente para os países ocidentais, o baralho se adaptou de tal maneira que acabou adquirindo foros nacionalistas de acordo com a nação que o adotava, como as suas cores específicas e os seus distintivos heráldicos. Isso aconteceu na França, na Itália e na Espanha, mas na Alemanha eles eram representados pela folha, coração, sino e pinhão. Mais adiante surgiram os baralhos espanhol e italiano de 40 cartas, até hoje usados pelos brasileiros para jogar truco ou escopa, e além deles os baralhos alemães de 36 ou 32 cartas, que é o mesmo usado para pôquer no Brasil.
Ao longo do tempo o baralho sempre originou muita superstição, como, aliás, não poderia deixar de acontecer em razão de suas origens místicas, o que até hoje leva um jogador que perde com cartas novas, a exigir que se retorne ao jogo com as usadas. Outra preocupação sempre foi com a segurança, e por isso, para evitar fraudes, prevenir desonestidades, ou mesmo por temer o afastamento da desconfiada clientela diante de inovações em demasia, os fabricantes não ousavam introduzir grandes alterações nas costas das cartas, mantendo-se, também, extremamente conservadores nas suas figuras de reis, damas e valetes. Mas neste século, heróis nacionais, mulheres nuas, tentativas de desenhos modernos, personagens da história e do cinema, e até mesmo experiências de reconhecida qualidade artística, passaram a figurar nas cartas. Um baralho da marca Europa, fabricado na Espanha, nesta década, recupera em detalhes os trajes da época da Renascença, sendo acompanhado de um folheto assinado pelo catedrático da Escola Superior de Belas Artes de Madri, professor Teodoro Miciano, explicando as vestimentas (diferentes para cada uma das doze figuras) e seus pormenores. Na antiga União Soviética tentaram trocar valetes, damas e reis por heróis da Revolução de 1917, mas não deu certo.
De qualquer forma, o baralho tornou-se um bom negócio até para os governos. Na Espanha e na França, por exemplo, a fabricação já foi monopólio estatal. Os tentáculos do Estado vieram mesmo a influir no próprio desenho das cartas: a Inglaterra, que até 1828 cobrava meia coroa de imposto (muito dinheiro, na época) por baralho vendido, exigia que o selo comprovante do imposto pago fosse impresso no ás de espadas, o que gerou uma tradição pela qual até hoje, mesmo não existindo mais o imposto, o ás de espadas, naquele país, leva a marca do fabricante ou outro distintivo que o diferencia de todas as outras cartas.
Hoje o baralho é encarado muito mais como um passatempo familiar do que um instrumento de jogatina – do bridge ao rouba-monte, do buraco ao truco.
Fonte: Copag





