A a D - CAPOEIRA
A capoeira é um jogo atlético de ataque e defesa que foi introduzido no Brasil pelos negros trazidos da África, tendo sido muito praticado antigamente, principalmente em Salvador, Recife e Rio de Janeiro. Sua prática exige força muscular, flexibilidade das articulações e rapidez dos movimentos, oferecendo em contrapartida, poderosos e surpreendentes recursos de agressão e defesa. Os antigos capoeiras colocavam-se diante do adversário, investiam, saltavam, esgueiravam-se, pinoteavam, simulavam, deitavam-se e levantavam-se, servindo-se, ao mesmo tempo, dos pés, das mãos, da cabeça, da faca, da navalha, e podiam assim levar de vencida dez ou mais homens. Eles andavam armados com uma navalha e um bastão de madeira com cerca de 50cm de comprimento, preso ao pulso por uma corda de linho.
Até os primeiros anos do regime republicano, final do século 19, os capoeiras dominavam nas cidades de Recife, Salvador e Rio de Janeiro. No exército, na marinha, na polícia, em toda a parte existiam famosos capoeiras que eram, na maior parte, mulatos ou crioulos. Eles formavam maltas, isto é, grupos de vinte a cem, que à frente dos batalhões, blocos carnavalescos, nas festas cívicas ou nacionais, provocavam arruaças, batendo nos que os enfrentavam e até mesmo ferindo muita gente. Cada um desses grupos possuía sua denominação e característica própria, inclusive no modo de vestir: calças largas, paletó-saco desabotoado, camisa de cor, gravata de manta e colete sem gola, botinas de bico fino e revirado, e chapéu de feltro. Hoje restam apenas alguns amadores que praticam a capoeira, mais por amor ao próprio esporte do que pelo desejo de provocar desordens ou exibir valentia.
Antigamente, a capoeira era relacionada à malandragem e religiões. Era considerada uma forma de luta disfarçada em dança e ritual, onde associava a luta às músicas e ritmos de candomblé, religião dos negros escravos. Capoeira era o nome dado aos locais de mato baixo, entre árvores, onde os escravos fugitivos treinavam este tipo de luta e daí o nome. Esta prática foi levada para as ruas após a abolição da escravatura, quando foi proibida por lei e revogada somente em 1930, começando a ser praticada dentro de recintos fechados. Atualmente, a Capoeira é entendida como arte. É um jogo de movimentos entre duas pessoas com características de luta e, portanto, não se usa dizer mais lutar capoeira e sim jogar capoeira.
O berimbau é o principal instrumento que acompanha esta dança, ao lado de outros que ajudam a dar o ritmo cadenciado ao jogo, como o atabaque, o pandeiro, o agogô, o reco-reco e o ganzá. Além disso, todos cantam juntos a mesma música de marcação. Os capoeiristas jogam no meio de um círculo composto por eles mesmos, e o mais interessante é que na roda várias movimentações diferentes acontecem seguidamente sem que ninguém fale nada, apenas o toque do gunga, um berimbau tocado pelo capoeirista mais antigo da roda, determina e comanda todo o jogo. A capoeira pode ser dividida em duas linhas: a Angola, jogada num ritmo mais lento, possui vários golpes (rabo-de-arraia, rasteira, tesoura, etc.), e a Regional, criada pelo mestre Bimba entre as décadas de 30 e 40, com ritmos mais rápidos.
João Couto Teixeira, em monografia desenvolvida no Curso de Especialização no Ensino da Capoeira na Escola, Universidade de Brasília, 1998, esclarece que “Durante o governo do presidente Deodoro da Fonseca, o então ministro da fazenda, Rui Barbosa, determinou que se queimasse toda documentação referente à escravidão no Brasil. Como a capoeira, em suas raízes, foi estreitamente ligada à escravidão, o concernente ao seu histórico é baseado em tradições orais, e poucos documentos que escaparam à incineração de 1890 (...). Entre as várias correntes de opinião envolvendo as origens da capoeira, destaca-se a que argumenta ter sido ela criada e desenvolvida aqui no Brasil, talvez logo após as primeiras fugas dos engenhos. Nesse caso, cita-se como argumento a inexistência da capoeira na África, até pouco tempo. A capoeira teria surgido de danças africanas às quais se acrescentou um caráter marcial (de ataque e defesa). Isso era necessário para que os escravos fugitivos nos quilombos, pudessem se defender e/ou atacar os capitães-de-mato".
"Com relação ao nome do jogo, tem-se conhecimento que escravos oriundos de quilombos (geralmente situados em florestas), preferiam lutar, quando necessário, em local onde condições ambientais pudessem lhes ser favoráveis; essa região escolhida costumava ser a 'capoeira', denominação dada à terra recentemente queimada, quando começam a brotar as primeiras gramíneas, não havendo ainda arbustos ou árvores de grande porte. Nesses locais, os escravos se sentiam aptos para enfrentar seus perseguidores, que os achando agachados na relva, precisavam se cuidar dos então chamados 'Lutadores de Capoeira', 'Lutadores da Capoeira', ou simplesmente 'Capoeiras', que passou a ser também o nome do jogo".
"A história demonstra ter sido a capoeira usada como defesa à opressão social em diversas regiões do Brasil, principalmente no estados da Bahia e Rio de Janeiro, de onde nos chegam lendas de capoeiras famosos (...). Em maio de 1809 era criada a Guarda Real de Polícia, dirigida pelo Major Miguel Nunes Vidigal, temido e implacável na perseguição aos capoeiras, que desta data em diante não teriam mais sossego. A capoeira exerceu influência nos acontecimentos socioculturais e políticos do Brasil, a tal ponto que o Código Penal de 1890 deu um tratamento especial ao caso, prevendo prisão, trabalhos forçados, e até deportação para os seus praticantes".
Naquela época, não existindo organização didática mais concreta, os ensinamentos eram propalados de maneira bastante intuitiva e os segredos bem mantidos, respeitando-se o caráter profundamente tradicionalista dos velhos mestres, como os da Ladeira de Pedra do bairro da Liberdade, onde surgiria o primeiro centro de capoeira angola do estado da Bahia (...). Há muito se ouve sobre capoeiristas que não dispensavam seus chapéus de palha, lenço no pescoço (O capoeirista nunca desprezou o seu cachecol de seda ao pescoço para sua defesa contra essa arma traiçoeira que se chama navalha), tamanco arrastando e brinco de argola na orelha. Via de regra, pessoas idôneas, embora mandingueiras. Mesmo diante dos maiores desafios mantinham impecável atitude ética, o que lhes valia convites para serem guarda-costas de políticos famosos".





