A a D - CARNAVAL
Pode-se dizer que o carnaval sempre fez parte de diversas comemorações antigas, como as dionísias, na Grécia, dedicadas a Dionísio, ou bacanálias, em Roma, homenageando a Baco, ambos deuses do vinho, além de outras realizadas por povos que deixaram vestígios das celebrações que ocorriam na entrada do ano ou começo de primavera, simbolizando o renascer da natureza e a perpetuação da vida animal. Os antigos egípcios também realizavam no outono a festa de Ápis, touro sagrado que eles acreditavam ser a encarnação de Osíris, seu deus maior, na qual homens, mulheres e crianças, cantando e dançando em procissão, acompanhavam até o rio Nilo um boi branco pintado com várias cores e sinais cabalísticos, onde o animal morria afogado.
A etimologia da palavra é duvidosa. Sua origem pode ser o carrum navalis, carro alegórico conduzido por animais cobertos de enfeite e montados por homens e mulheres nus e cantando obscenidades, com o qual os romanos abriam determinados festejos. Deles dizia Caio Petrônio, escritor romano morto no século 1: “o povo de Roma parece endoidecer no carnaval; sem distinção de classe ou idade, romanos e escravos dizem o que querem e a quem querem, em absoluta libertinagem”. Outra versão é o carnem levare (adeus à carne), em alusão ao período da Quaresma que começa na Quarta-Feira de Cinzas. Nesse caso, a localização temporal da festa é devida ao catolicismo, pois surgiu dele a determinação de que o domingo de carnaval deve ocorrer obrigatoriamente cerca de sete semanas antes da Páscoa.
Mas o carnaval jamais se preocupou com as origens, mantendo sempre seu comportamento zombeteiro, licencioso e livre de quaisquer etiquetas. Foram os portugueses que o trouxeram para o Brasil, quando Salvador Correia de Sá e Benevides, nomeado governador-geral do Rio de Janeiro em 1658, ao decidir comemorar na noite de 31 de março, domingo de Páscoa, a subida de Dom João IV ao trono português, iniciou uma série de festas onde os blocos e os préstitos foram o destaque. Só mais tarde a realização desses festejos passou a ser feita periodicamente, adquirindo pouco a pouco o cunho popular que apresenta atualmente.
O carnaval já foi chamado de Entrudo graças à influência dos portugueses oriundos da Ilha da Madeira, dos Açores e ilha de Cabo Verde, que em 1723 iniciaram entre nós a brincadeira de loucas correrias, mela-mela de farinha e água com limão, daí surgindo, posteriormente, as batalhas de confetes e serpentinas. No final do século 19, começam a aparecer os primeiros blocos carnavalescos, cordões e os famosos corsos, que se tornaram muito populares no começo do século 20: as pessoas se fantasiavam, decoravam seus carros e desfilavam alegremente com eles pelas ruas da cidade, costume que se consolidou de tal forma que acabou dando origem aos carros alegóricos típicos das escolas de samba atuais. Daí em diante o carnaval foi crescendo e se tornando cada vez mais uma festa popular, o que ocorreu com a ajuda das marchinhas carnavalescas - como a do Pirata da perna de pau, Alaláô, Pierrô apaixonado, Você pensa que cachaça é água, Me dá um dinheiro aí, e outras mais - músicas que deixavam o carnaval cada vez mais divertido e animado.
A primeira escola de samba surgiu no Rio de Janeiro: chamava-se Deixa Falar e foi criada pelo sambista carioca Ismael Silva. Anos mais tarde ela se transformou na escola de samba Estácio de Sá. A partir dai o carnaval de rua começou a ganhar um outro formato com o surgimento de novas escolas de samba no Rio de Janeiro e em São Paulo, que agrupadas em Ligas de Escolas de Samba organizaram os primeiros campeonatos para verificar qual delas era a mais bonita e animada.
Modernamente o carnaval perdeu o sentido místico de antigamente para se transformar em regozijo público celebrado nos três dias anteriores à quarta-feira de cinzas, que abre o período de penitência da Quaresma. Alguns textos relativos ao carnaval moderno, feito à base de desfiles e fantasias, o colocam como derivado da sociedade vitoriana do século 19, dizendo que nessa época a cidade de Paris, capital francesa, serviu como modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo inteiro, fazendo com que outras cidades - como a francesa Nice, a americana Nova Orleans, a canadense Toronto e brasileira Rio de Janeiro - se inspirassem no carnaval parisiense para implantar suas novas festas carnavalescas.
No Brasil o carnaval é tradicionalmente festejado nos dias de sábado, domingo, segunda e terça-feira anteriores aos quarentas dias que vão da quarta-feira de cinzas ao domingo de Páscoa. Na Bahia ele também é comemorado na quinta-feira da terceira semana da Quaresma, mudando de nome para Micareta. Esta festa deu origem a várias outras em alguns estados nordestinos, todas elas com características similares às baianas - como a presença indispensável dos trios elétricos - e são realizadas no decorrer do ano: em Fortaleza, por exemplo, realiza-se o Fortal; em Natal, o Carnatal; em João Pessoa, a Micaroa; em Campina Grande, a Micarande; em Maceió, o Carnaval Fest; em Caruaru, o Micarú; em Recife, o Recifolia, e outras mais.





