A a D - ABRE-TE, SÉSAMO!
Uma das obras mais famosas da literatura oriental, o livro das Mil e Uma Noites, foi traduzido pela primeira vez no ocidente pelo orientalista e arqueólogo francês Antoine Galland (1646-1715), catedrático da língua árabe no Colégio de França, e editado na Europa entre os anos de 1704-1717, tornando-se uma publicação clássica. Esse trabalho mantém a mesma característica do original, em que a narrativa é feita pelo próprio personagem ou personagens das aventuras, e contém inúmeras histórias interessantes e educativas, entre elas a de Ali Babá e os quarenta ladrões, a descrição das viagens extraordinárias de Simbad, o marujo, as de Aladim e a lâmpada maravilhosa, O Mercador e o Gênio, e outras mais. Como a origem do livro das Mil e Umas Noites é bem curiosa, vale a pena conhecê-la:
Conta-se que Sharyar, um sultão poderoso, havia sofrido amarga desilusão amorosa, e por isso, depois de ter mandado matar a esposa que o havia traído, decidira não mais confiar nas mulheres. Por isso, a integrante de seu harém que lhe fizesse companhia durante uma noite, deveria ser morta na manhã seguinte. Acontece que Scherazade, uma dessas jovens, ao ser escolhida pelo príncipe, decidiu escapar do destino que lhe estava reservado, e para tanto contou ao sultão uma história muito bonita, mas sem revelar o seu final. Interessado em conhecê-lo, o príncipe árabe adiou a execução, mas a mesma coisa aconteceu na noite seguinte: um novo relato, um novo suspense, e assim, durante mil e uma noites, a moça inteligente foi protelando o seu fim anunciado, até conseguir afastar em definitivo o perigo mortal que a ameaçava.
Quanto a Ali Babá, ele era, segundo a história, um ladrão famoso e atuante que liderava uma quadrilha formada por cerca de quarenta experimentados bandidos. Esse bando de criminosos guardava o produto das suas pilhagens e assaltos em uma grande caverna fechada por enorme rochedo que só se movia quando o chefe dos assaltantes pronunciava as palavras mágicas Abre-te, Sésamo!, que só ele conhecia. Nesse momento, a pedra se afastava o bastante para permitir a entrada do grupo no esconderijo, e a não ser dessa maneira, ninguém mais conseguia penetrar no seguro depósito que os malfeitores haviam arranjado.
A palavra sésamo vem do latim sesamum, nome de uma planta herbácea que não é outra senão o nosso conhecido gergelim, cujos frutos contém as mesmas sementinhas que os padeiros de hoje espalham sobre determinados tipos de pão. O gergelim, ou sésamo, é conhecido desde os tempos mais remotos, principalmente na Índia e Egito, e as suas sementes, de múltiplos usos culinários, também foram usadas em rituais religiosos devido à crença de que possuíam poderes só explicados pela fé no sobrenatural. Além do mais, elas ficam encerradas em uma cápsula que se abre com facilidade depois de seca, sendo esta, provavelmente, a ligação entre os pequeninos grãos amarelados e a expressão cunhada por Ali Babá para servir como senha de abertura do portal de seu tesouro (na ilustração, cartar do filme dirigido por Arthur Lubin (1944), com John Hall como Ali e Maria Montez como Amara).
Em conferência proferida em 04 de junho de 1986, na Semana de Estudos Árabes, realizada pelo Centro de Estudos Árabes da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de São Paulo - USP, o poeta, ensaísta, crítico literário e também médico psiquiatra Jamil Almansur Haddad, declarou que na história de Scherazade e do rei Sharyar, sua interpretação era a de que o fato dela contar histórias que nunca terminavam, tinha também, além do sentido imediato da luta contra a morte, a destinação política e social de evitar que outras mulheres de seu povo tivessem destino idêntico ao das que as haviam antecedido. E completou seu pensamento afirmando que esse tipo de personagem é repetitivo porque nos dias atuais, e em circunstâncias iguais de opressão, pessoas com conformação psicológica idêntica à da heroína do conto sempre acabam aparecendo. Finalizando sua palestra, o doutor Jamil asseverou que “assim, as Mil e Uma Noites admitem interpretações infinitamente variadas. E dependendo do especialista que trate do assunto, há variedades de perspectivas: para o sanscritista, o persianista, o sinólogo, que tendem a privilegiar o seu enfoque particular. Seja como for, há uma multiplicidade de ângulos que vai até o infinito”.
Seja como for, a locução abre-te sésamo veio sendo empregada através dos tempos, principalmente nos momentos em que a intenção deliberada de alguém era a de remover os obstáculos que porventura estivessem impedindo a abertura de qualquer coisa. Da mesma forma como continua sendo feito nos dias de agora.





