A a D - AMOR PLATÔNICO
Platão foi um filósofo grego que viveu entre os anos 428 e 348 antes de Cristo. Oriundo de família aristocrata que tinha participação efetiva nos destinos políticos da Grécia, sua juventude foi marcada pelo seu encontro com Sócrates (470-399 a.C.), mestre que sem escola e sem livros, usando apenas o diálogo, levava seus discípulos ao conhecimento de si mesmos, do bem e das virtudes, ao mesmo tempo em que demolia preconceitos e abalava falsos valores e reputações. Mas este, ao ser acusado de corromper os jovens, foi condenado à morte, o que convenceu Platão de que a democracia grega - sistema político que fazia desaparecer “o mais sábio e o mais justo de todos os homens” - deveria ser reformulada, tornando-se necessário, para tanto, fornecer novas bases educacionais aos jovens que no futuro exerceriam as funções governamentais.
Visando concretizar seu projeto de educar os cidadãos para a vida pública, Platão fundou a Academia (387 a.C.), onde nas preleções que fazia a seus discípulos colocava em prática o seu método de ensino voltado para a busca da verdade. Ele foi o criador da doutrina batizada com o nome de platonismo, cujo fundo e originalidade são constituídos pela teoria das idéias (essências existentes em si, independentes das coisas e do intelecto humano). Em Fédon, obra na qual ele relata, através de diálogos, os últimos ensinamentos recebidos de Sócrates, essa teoria surge na forma de uma proposição feita sem relação com a questão de se saber se ela é verdadeira ou falsa, mas baseada unicamente na qualidade de princípio, de tal modo que a partir dela se possa deduzir um conjunto de outras proposições. E sua aplicação se efetiva através da utilização generalizada do chamado método dos geômetras: uma suposição é levantada e dela se extraem as conseqüências lógicas. Assim, através de um jogo de hipóteses, o sistema filosófico de Platão vai sendo construído.
Na sua obra Diálogos, o filósofo caracteriza as idéias como incorpóreas e invisíveis, eternas e idênticas a si mesmas, não sofrendo nunca a ação do tempo. Perfeitas e imutáveis, seriam os modelos dos quais as coisas materiais seriam cópias imperfeitas e transitórias. No Mênon, Platão expõe a teoria de que apenas o homem pode chegar ao conhecimento das idéias, pois só ele é dotado de intelecto – e o intelecto, como as idéias, é incorpóreo. A alma humana teria contemplado as idéias antes de juntar-se ao corpo, mas depois que essa encarnação se consuma, ela perde a possibilidade de manter um contato direto com as idéias, sendo restringida a relacionar-se apenas com suas cópias.
O filósofo grego acreditava na existência de dois mundos: o das idéias, onde tudo seria perfeito e eterno, e o real, que por ser finito e imperfeito não passa de mera cópia mal-acabada do mundo ideal. Daí o termo platônico, com significado de “ideal desligado de interesses ou gozos materiais”, e por redundância, amor platônico, definido como “O amor à distância, que não se aproxima, não toca, não envolve, revestindo-se de fantasias e de idealização. O objeto do amor é o ser perfeito, detentor de todas as boas qualidades e sem máculas. Parece que o amor platônico distancia-se da realidade e, como foge do real, mistura-se com o mundo do sonho e da fantasia”.
Em sua edição de fevereiro de 2001, a revista Superinteressante publica matéria falando sobre O Banquete, diálogo de autoria do filósofo, na qual afirma que “O cenário é um jantar comemorativo em que Platão, Sócrates e outros convivas discutem as diferentes formas de amor, em busca de uma definição universal. A conversa vai, assim, do amor mais básico, para procriação, ao que os filósofos reunidos consideram a forma mais elevada do sentimento: o amor puro e abstrato, fundamentado na parceria intelectual e espiritual. Esse seria o ‘amor platônico’ original. ‘Para Platão, o plano da experiência humana é inferior ao das idéias e dos conceitos. Por isso, o amor é tratado como um conceito, como um ideal’, afirma o helenista Trajano Vieira, professor de literatura grega da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). ‘O platonismo teve forte influência nos primeiros séculos do cristianismo, religião que está impregnada por essa hierarquia amorosa’, diz ele. Mas é importante observar que aquilo que o senso comum entende hoje por amor platônico – o amor sem contato físico – é diferente do que está em Platão. Para ele, esse amor idealizado não exclui o contato físico e sim o transcende”.
O amor platônico, segundo especialistas da psicoterapia, ocorre com maior freqüência entre os adolescentes e adultos jovens, principalmente nos indivíduos mais tímidos, introvertidos, que sentem maior dificuldade para aproximar-se do objeto de seu amor, seja por insegurança, imaturidade ou inibição do ponto de vista emocional. O medo de não atender aos anseios do amado, o sentimento de desvalorização, de incapacidade e desintegração, podem contribuir para a não aproximação, para o amor à distância, impedindo que o indivíduo vivencie não só a experiência de amar, mas sentir-se amado; não só cuidar e se preocupar, mas sentir-se acolhido, contido e amparado. Essa troca de experiências emocionais é que permite o sentimento de que amar e viver vale a pena, ajudando-nos a suportar as dificuldades e conflitos do cotidiano.
Para outros, o amor platônico não tem mais espaço na vida moderna porque faltam agora, na relação entre homem e mulher, os sonhos, as identificações e os projetos em comum. Ao contrário de antigamente, quando a admiração de alguém por alguém dava início a esse sentimento e só depois se transformava em atração física, nos dias de hoje essa primeira etapa do relacionamento foi simplesmente colocada de lado. Costuma-se dizer, também, que às vezes confundimos amor ideal com amor platônico. O amor ideal é aquele que idealizamos, ou seja, é o amor romântico que pode evoluir para o amor platônico.
Seja qual for a forma como o encaremos, o Amor Platônico, letra e música do grupo Legião Urbana, diz resignadamente que “Eu sou apenas alguém / ou até mesmo ninguém / talvez alguém invisível / que a admira a distância / sem a menor esperança / de um dia tornar-me visível / e você? / Você é o motivo / do meu amanhecer / e a minha angustia / ao anoitecer? Você é o brinquedo caro / e eu a criança pobre / o menino solitário que quer ter o que não pode. / Dono de um amor sublime / mas culpado por querê-la / como quem a olha na vitrine / mas jamais poderá tê-la. / Eu sei de todas as suas tristezas / e alegrias / mas você nada sabe / nem da minha fraqueza / nem da minha covardia / nem sequer que eu existo. / E como um filme banal / entre o figurante e a atriz principal / meu papel era irrelevante / para contracenar / no final / no final / no final”.





