A a D - ARRAIA MIÚDA
Arraia é um peixe de água doce ou salgada, também conhecido como raia, do qual existem várias espécies. Mas além desse significado, a palavra - que é de origem árabe - pode ser usada não só para denominar o papagaio, ou pipa, de papel de seda e forma poligonal (brinquedo que os garotos soltam ao vento, preso a um cordel), mas ainda para classificar o povo, a plebe, o populacho.
Neste caso, quando a ela se acrescenta o adjetivo miúdo, forma-se a locução cujo sentido é o de gente vulgar, socialmente inexpressiva, sem qualquer representatividade, aquela parcela da população a que se costuma chamar corriqueiramente de zé povinho.
A expressão é antiga, pois vem de longa data, e chegou até nós por meio dos portugueses que para aqui acorreram durante o período da colonização. Essa utilização de sete séculos, ou mais, é corroborada pelo historiador português Jaime Cortesão (1884-1960), que ao relembrar a revolução ocorrida em seu país entre os anos 1383/1385, relata que “Em Évora a revolta teve desfecho mais trágico. Tomado o castelo, a arraia-miúda, capitaneada por um cabreiro e um alfaiate, apoderou-se da cidade; e os grandes (pequenos fidalgos e burgueses), todos havidos por suspeitos, foram uns lançados fora e outros assassinados. (...). No Porto, àqueles que chamavam arraia-miúda disseram a um por nome Álvaro da Veiga que levasse a bandeira pela vila e voz em nome do Mestre de Avis, e como ele recusasse, crivaram-no de cutiladas, aos gritos de: Traidor! Outro burguês, mais avisado, antes que o convidassem, apressou-se a tomar a bandeira e a bradar o pregão da independência. E a turba, sobre quem havia dezenas de anos pesava a excomunhão (nem os que faleciam se enterravam em sagrado), mandou alumiar os templos, dobrar os sinos, celebrar ofícios, e foi-se aos cemitérios desenterrar os cadáveres para os sepultar de novo dentro das igrejas. Até aos mortos chegara a sua hora!”.
Da mesma forma, o escritor Fernando Correia da Silva, nascido em Lisboa (1931), ao descrever a “Paixão Fatal d’el Rei D. Pedro por Inês de Castro”, imagina um encontro seu com os poetas Luis de Camões (nascido em 1542), Antônio Pereira (nascido em 1528) e Garcia de Rezende (nascido talvez em 1470), portugueses como ele, e relata que “em 1340 arribamos a Coimbra e ali descemos. É noite. Grande agitação pelas ruas e vielas, cantorias, arraiais, bailaricos, todo o povo a festejar o regresso de D. Afonso IV. Homem bravo, fora ele quem acudira a Afonso XI de Castela para, na batalha do Salado, em conjunto derrotarem a moirama da Península Ibérica. Um rancho com tochas acesas sai de um beco. Logo depois, cercado por tocadores de trompas e adufes, em passos ligeiros e bem marcados, surge um folião que a todos arrasta para a dança colectiva. Garcia de Resende reconhece o dançarino: - Mas é D. Pedro, o filho d’el-Rei D. Afonso IV... E tem razão, é D. Pedro que, apesar de Príncipe herdeiro, não se recusa a conviver, a bailar e a divertir-se com a arraia-miúda".
O pesquisador, historiador e folclorista Luis da Câmara Cascudo, em Locuções Tradicionais do Brasil, confirma que a frase já era popular na primeira metade do século 14. E menciona Fernão Lopes (1380-1460), considerado o mais ilustre historiador português da Idade Média, que em Crônica de D. João I, XLIII, escrita por incumbência a ele delegada pelo rei D. Duarte, escreveu ipsis litteris: “O quall ajuntamento dos pequenos poboos, que sse entonçe assi jumtava, chamavom naquell tempo arraya meuda”.
Com relação ao Brasil, o Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, da Universidade de Campinas, possui um acervo (microfilmagens) de jornais publicados em nosso país na segunda metade do século 19, e entre eles encontra-se o Zé Povinho - O Jornal da Arraia Miúda, editado no Rio de Janeiro em 1879.
Por sua vez, Ricardo Correia Peixoto, em monografia apresentada em 2006 à Universidade Salgado de Oliveira, para obtenção do titulo de Licenciado em História, diz que “Em 1902, Pereira Passos dá início a quatro anos de uma gestão que irá transformar a face e os hábitos do Rio de Janeiro. (...) Sua ação, que tem a 'civilização como bandeira', desenvolve-se principalmente em dois domínios: grandes obras e reforma dos comportamentos. (...). A partir de janeiro de 1903, edita-se uma série de proibições municipais para eliminar do centro da capital federal o aspecto de pátio dos milagres: é proibido vender nas ruas animais abatidos; conduzir vacas por locais públicos (era freqüente entregar o leite aos consumidores dessa maneira); criar porcos na área urbana; mendigar(...). As autoridades também combatem vigorosamente os usos e costumes populares considerados degradantes ou geradores de perturbações da ordem pública. (...). Logo buscaremos entender os impactos conseqüentes de tais mutações administrativas, que mimetizavam uma civilização que não reservava espaço para a arraia miúda”.
Atualmente, a preocupação com o que se convencionou chamar de politicamente incorreto, forçou os órgãos de divulgação do país a não mais empregarem tal designação ao se referirem à população de pouca ou mesmo nenhuma expressão sócio-econômica. Já não se vê a frase impressa em jornais e revistas, nem tampouco mencionada nos noticiários falados e televisados, mas ela ainda sobrevive nas insinuações feitas por homens que gravitam em torno do poder, quando se referem aos discordantes de suas opiniões políticas.
Resumindo, arraia miúda é hoje, como ontem, o cidadão inexpressivo, carente, muitas vezes confundido com a ralé, mas que ainda assim constitui a base da pirâmide em cujo topo se encarrapitam os privilegiados que lhe prometem tudo, mas não lhe dão nada.





