A a D - COM O RABO ENTRE AS PERNAS
Quando o indivíduo percebe um objeto perigoso ou uma situação ameaçadora, geralmente fora de seu controle, lhe surge o medo, uma reação emocional que envolve sentimentos de desprazer, desassossego, intranqüilidade e desejo de fuga, acompanhados de modificações orgânicas resultantes em grande parte da atividade do sistema nervoso simpático (‘frio na espinha’, “suor frio”, “bolo no estômago”, aceleração do batimento cardíaco, etc.).
Essa perturbação de espírito é conseqüência da reação a um perigo específico, não devendo ser confundido com a ansiedade - reação a algum risco não identificado -, nem com a fobia - reação neurótica que consiste num medo persistente e irracional. Muitos autores consideram o medo uma das emoções básicas (ao lado do pressentimento, da ira, da alegria, do consentimento, da surpresa, do pesar e da repulsa), acreditando que a complexa experiência emocional dos adultos resultaria de uma mistura dessas oito reações, em diferentes níveis de intensidade.
Um exemplo da rapidez com que as emoções podem se suceder em um mesmo indivíduo é o do cidadão que vai guiando seu carro pela estrada. Ele viaja tranqüilo até que outro automóvel lhe surge pela frente, saído de uma transversal. O homem se assusta, contrai os músculos da barriga, mas instintivamente pisa no freio com força e gira o volante, tentando evitar o choque. Os pneus guincham, ouve-se o barulho de lataria amassada e de vidros quebrados, mas logo depois, parcialmente refeito e com a sensação de que “o pior já passou”, o homem se enraivece por causa da imprudência do imbecil que lhe pregou um susto e danificou seu carro. De punhos cerrados e rosto crispado ele avança para o outro carro, mas ao ver o seu motorista ensangüentado, é acometido de náuseas, sentimento de culpa e compaixão. Então, uma vez mais ele modifica seu comportamento: retira o ferido do veículo e corre para providenciar socorro urgente.
Esse episódio comum nos mostra como emoções diferentes podem se suceder rapidamente no mesmo indivíduo. Elas fazem parte do cotidiano da vida humana e sempre constituíram a matéria-prima de poetas, romancistas e dramaturgos, alguns dos quais as descreveram e analisaram de forma genial.
Uma das conseqüências do medo é a submissão, comportamento que traduz a sujeição, a entrega, a rendição, a resignação, a obediência às ordens ou vontade de outrem. Essa subserviência permitiu no passado que ditadores, déspotas e tiranos enfeixassem em suas mãos o poder de decidir sobre o destino de milhões de pessoas incapazes de defender a própria dignidade, e ainda hoje é o que explica por que falsos líderes e quadrilheiros de todo o tipo mantêm multidões sob seu domínio, transformando bairros, cidades, estados e países em currais onde homens e mulheres lhes prestam a mesma obediência que mantinha de cabeça baixa os escravos de outrora.
Em tempos passados esse procedimento subalterno foi comparado com o comportamento de certos animais, quando alguém descreveu uma determinada cena conhecida de todos os que o ouviam: um jovem cão andava sem destino certo pelas ruas de uma aldeia quando encontrou outro cão seguindo uma fêmea no cio. Os dois machos brigaram por causa dela, e após um rápido embate sem maiores ferimentos o primeiro é subjugado e se dá por vencido: baixa a guarda, põe o rabo entre as pernas e para não ficar tão humilhado ainda solta uns grunhidos, mas acaba desistindo e volta pra casa.
A analogia – processo lógico de assemelhar coisas por meio de comparações ou deduções – existente entre o cachorro que se afasta medroso e o homem que aceita sem reação as imposições, ofensas, desaforos ou humilhações feitas a ele por terceiros, provocou a inclusão da expressão “com o rabo entre as pernas” ao linguajar comum do cidadão, como forma de identificar as situações em que alguém, aceitando passivamente que outro alguém o desrespeite com pensamentos, palavras e obras contrárias à sua condição ou vontade pessoal, engole em seco, e agacha a cabeça, ou então se retira do local em busca sabe-se lá do quê.





