A a D - BICHO-DE-SETE-CABEÇAS

Dos heróis mitológicos da Grécia antiga, Hércules é, certamente, o mais conhecido. Filho de Zeus, o deus supremo, com a mortal Alcmena, ele foi criado por Anfitrião, marido de sua mãe, recebendo esmerada educação e tornando-se, em seguida, o mais valente e perfeito dos homens divinizados. Possuidor de força extraordinária, Hércules começou a aplicá-la em diversas empreitadas, mas Hera, deusa dos fenômenos celestes, fez com que caísse num estado de demência melancólica, durante a qual acabou matando um filho que tivera de Mégara, filha de Creonte, rei de Tebas, sendo por isso condenado a executar doze trabalhos determinados por Euristeu, rei de Mecenas. Um deles foi o de destruir a hidra de Lerna.

 

Essa fera terrível era um monstro de muitas cabeças (elas variavam de nove até cinqüenta, conforme diferentes versões) que habitava os pântanos de Lerna, um charco profundo de sessenta e dois metros de circunferência, localizado perto de Argos, cidade grega do Peloponeso. A hidra era dona de muitas faculdades fantásticas, entre as quais a de fazer renascer suas cabeças, caso as cortassem, a menos que a ferida fosse queimada com fogo, e seu veneno era tão poderoso, que uma flecha nele embebida podia matar ou causar ferimentos incuráveis até mesmo nos imortais. Ela não só devastava os campos, mas também dizimava os rebanhos da região em que habitava, apavorando os moradores e os viajantes que por lá passavam, e para combatê-la Hércules contou com a ajuda de seu sobrinho Iolas, ou Iolau, filho de Íflico, seu irmão gêmeo, que queimava com uma tocha as cabeças dessa criatura fantástica, tão logo elas iam sendo cortadas pelo seu tio. Terminada a batalha com o corte de todas as cabeças do monstro, a última delas foi enterrada sob um rochedo.

 

Durante o combate entre a fera e o herói mitológico, aconteceu um fato interessante. Foi quando a deusa Hera (que é a mesma Juno venerada pelos romanos), ciumenta esposa de Júpiter (ou Zeus), ao perceber o triunfo iminente de Hércules, mandou que um caranguejo o mordesse, para distraí-lo, mas o pequeno artrópode foi esmagado sem muito esforço pelo pé do herói, que o reduziu a muitos pedaços. Por isso, e para homenagear o crustáceo sacrificado, a rainha do Olimpo decidiu transformá-lo na constelação de Câncer.

 

O interesse pelos doze trabalhos de Hércules persistiu durante milênios, tanto que até os dias de hoje o herói é referência para as empreitadas difíceis e consideradas sobre-humanas. Esses trabalhos foram os seguintes:

 

01 - estrangulou o leão de Neméia.

02 - matou a hidra de Lerna.

03 - capturou viva a corça de Cerinéi.

04 - capturou vivo o javali de Erimant.

05 - limpou os estábulos de três mil bois do rei Augias.

06 - matou com flechas envenenadas as aves antropófagas dos pântanos da Estinfália.

07 - capturou vivo o touro de Creta.

08 - capturou as éguas antropófagas de Diomede.

09 - levou para Edmeta o cinturão de Hipólita, rainha das guerreiras amazonas.

10 - levou para o rei de Micenas o imenso rebanho de bois vermelhos de Gerião.

11 - recuperou as três maçãs de ouro do jardim das Hespérides.

12 - apoderou-se do cão Cérbero, guardião das portas do inferno.

 

Nas narrativas populares, porém, a hidra de Lerna foi reduzida a um "bicho-de-sete-cabeças", conforme expressão que agora é usada comumente para qualificar não somente as coisas muito complicadas, mas também as situações, momentos e problemas que encerram grandes dificuldades para serem resolvidos de forma satisfatória.

 

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