A a D - BODE EXPIATÓRIO
A demonologia, ou demonografia, é o estudo científico da crença na existência e na influência dos demônios ou dos maus espíritos. Ela se baseia na teoria de que há seres fora do corpo convencendo, dominando e causando obsessão aos seres que vivem dentro do corpo, e se origina no reconhecimento das más influências que atuam na consciência humana. Os relatos sobre esse assunto são numerosos, mas como quase todos eles consistem em histórias de incidentes atribuídos às atividades de supostos maus espíritos, as investigações feitas até agora não autorizam que a demonologia seja considerada como ciência, devendo antes ser vista como simples crença religiosa.
É o caso, por exemplo, do bode que os judeus expulsavam para o deserto na festa das expiações, depois de terem jogado sobre ele todas as maldições que desejavam evitar ao seu povo. A expiação constitui uma celebração judaica, o Iom Kipur, celebrada anualmente no sétimo dia do décimo mês, quando todos os judeus devem jejuar, abster-se do trabalho, reunir-se no templo e oferecer sacrifícios. A explicação histórica para esse procedimento é que após o triunfo do cristianismo os deuses das antigas religiões foram considerados como demônios pelos cristãos. Alguns deles, especialmente Pã, os sátiros e outros mais, eram representados pela figura de um homem, na parte superior do corpo, e de um bode, na inferior, e por isso os cristãos julgavam que tais figuras revelavam seres nascidos de uma horrível promiscuidade, motivo pelo qual passaram a considerar esse animal como expressão viva da luxuria e admitiram que a forma do mesmo era aquela com a qual o diabo se apresentava habitualmente.
Na Bíblia, em Levíticos 16:5-10, está escrito que Aarão “receberá da assembléia dos israelitas dois bodes destinados ao sacrifício pelo pecado e um carneiro para o holocausto. Aarão oferecerá por si mesmo o touro em sacrifício pelo pecado e fará a expiação por si mesmo e pela sua casa. Tomará os dois bodes e os colocará diante do Senhor à entrada da Tenda de Reunião. Deitará sorte sobre os dois bodes, uma para o Senhor e outra para Azazel*. Oferecerá o bode sobre o qual caiu a sorte para o Senhor e o oferecerá em sacrifício pelo pecado. Quanto ao bode sobre o qual caiu a sorte para Azazel será apresentado vivo ao Senhor para que se faça a expiação sobre ele, afim de enviá-lo a Azazel no deserto”.
E em 16:20-21: “Havendo terminado a expiação do santuário, da Tenda de Reunião e do altar, Aarão apresentará o bode vivo. Imporá as duas mãos sobre a sua cabeça, e confessará sobre ele todas as iniqüidades dos israelitas, todas as suas desobediências, todos os seus pecados. Pô-los-á sobre a cabeça do bode e o enviará ao deserto pelas mãos de um homem encarregado disso. O bode levará, pois, sobre si, todas as iniqüidades deles para uma terra selvagem”.
A palavra expiação encontra-se poucas vezes na Bíblia, mas o conceito da expiação constitui o assunto principal do Antigo e do Novo Testamento. Palavras mais conhecidas como reconciliação, propiciatório, sangue, remissão de pecados e perdão, estão diretamente relacionadas com esse tema. Todo israelita sabia que "aos dez deste mês sétimo, será o Dia da Expiação" (Levítico 23:27). Havia sacrifícios diários pelo pecado, mas esse era um dia especial, de santa convocação. Esse dia era impressionante, santo e de grande importância porque os pecados de Israel eram expiados por meio de sangue. Já que "é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados" (Hebreus 10:4), esse ritual devia repetir-se a cada ano (Levítico 16:34) até aquele dia grandioso em que Cristo seria "oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos" (Hebreus 9:28).
No entanto, o conceito de expiação é comum às religiões, em geral. Entre os povos primitivos, os ritos expiatórios, ou de purificação, baseavam-se no princípio de que toda impureza ou desgraça era devida a sortilégios, e tanto podiam ser realizados de forma coletiva, como individual. Alguns deles foram conservados pela tradição popular de diferentes países, sendo freqüentemente mesclados a práticas da religião vigente. Seja como for, o fato é que o "bode expiatório", animal antigamente levado até o deserto e lá abandonado como forma simbólica de livrar as pessoas dos males por elas cometidos, sobrevive até os dias de hoje na expressão que identifica alguém que indevidamente seja considerado culpado pelos atos incorretos praticados por outro.
(*) Azazel: designa um ser maléfico, um demônio que se reputava habitar no deserto.





