A a D - CASA DA MÃE JOANA

Joana I de Anjou (1327-1382), condessa da Provença, foi rainha de Nápoles de 1343 até o dia de sua morte. Mulher de vida extremamente tumultuada e repleta de lances pouco recomendáveis, ela assumiu o trono napolitano em virtude da morte do avô paterno, casando-se logo depois com seu primo André da Hungria, a quem mandou matar por afogamento poucos meses depois do matrimônio, desposando em seguida um outro primo, Luis de Tarento.

 

Por causa disso, Luís da Hungria, seu inconformado e rancoroso cunhado, passou a perseguí-la de forma implacável, o que a obrigou a refugiar-se por algum tempo na cidade de Avignon, em Provença, no sul da França, cujas terras foram mais tarde cedidas por ela ao papa Clemente VI (1291-1352) em troca da absolvição dada pelo sumo pontífice ao crime que cometera.

 

Isso permitiu o retorno de Joana I a Nápoles, onde dez anos depois, com a morte do segundo marido, ela se uniu a Jaime, rei da Majorca, que a abandonou após algumas semanas de desencontros e desavenças conjugais. O companheiro imediato foi Oto de Brunswick, mas nesse meio tempo um outro primo, Carlos de Durazzo, declarou-lhe guerra, invadiu o reino de Nápoles, aprisionou-a no castelo de Muro Lucano e em seguida mandou matá-la.


 A história registra que durante sua permanência em Avignon, no ano de 1347, a complicada rainha decidiu regulamentar o funcionamento dos bordéis que existiam por lá, e para isso aprovou lei onde um dos artigos especificava: “...e que tenham uma porta por onde todas as pessoas possam entrar”. Conseqüência: como a partir daquela data os prostíbulos, por força da determinação real, deveriam permanecer sempre abertos aos que desejassem freqüentá-los, um deles passou a ser conhecido pelo nome de Paço da Mãe Joana, numa associação clara e meio marota entre a classificação de paço, designação que se dava na época aos edifícios suntuosos onde moravam os ricos e os nobres, com a pessoa que mandara escancarar ao público as portas das casas de tolerância, e por isso era chamada de mãe.


Essa designação tornou-se popularmente conhecida em Portugal, tanto que e historiador Teófilo Braga, em 1885, já a registrava em “O Povo Português”, editado na cidade de Lisboa, esclarecendo nesse documento que “Paço da Mãe Joana” é como se nomeia usualmente a casa que está aberta para toda gente”. Mas como a população do Brasil colonial praticamente não usava o vocábulo em questão no seu linguajar diário, ele foi substituído naturalmente pela palavra “casa”, que por ser conhecida de todos acabou sendo incorporada de forma definitiva à frase feita.

 

De lá para cá, a locução “casa da mãe Joana” passou a ser usada comumente pelos brasileiros para identificar os lugares onde as pessoas entram e saem a qualquer momento do dia ou da noite, ou então mexem em tudo com a maior sem-cerimônia, transformando o recinto numa verdadeira bagunça. Daí, portanto, ser perfeitamente admissível sua associação com a decisão tomada há séculos pela rainha napolitana, cuja lembrança fornece à expressão popular um indiscutível sentido de autenticidade.


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