A a D - CHATO DE GALOCHA
Segundo Guilherme de Figueiredo, em Tratado Geral dos Chatos, “chato é o indivíduo, ser, coisa ou evento cuja presença, existência, atitude, ação ou lembrança, continuadamente, tem a capacidade de inspirar sentimentos contrários à alegria de viver, à paz de espírito e à Paz Mundial”. Para o autor, “é um erro assegurar-se que essa designação provém do nome vulgar dado a certo inseto, pois muito antes de se atribuir o sentido vil à palavra, o ser, coisa, evento ou indivíduo já recebiam essa designação de “chato”. Segundo Figueiredo, “qualquer que seja a doutrina ou hipótese adotada pelos estudiosos, reconhece-se que o chato surgiu com o aparecimento do ser vivo, e o ser que tomou conhecimento do chato foi o homem (ou a mulher)”. Por isso, o “que cabe à ciência é constatar a existência do chato sob suas diversas formas; e tanto quanto podem ser cridas as fontes históricas, não houve um só período da humanidade em que ele não estivesse presente e atuante.
Uma das formas de aparição dessa criatura desagradável - e da qual todos procuram manter-se à distância - é representada pelo chamado chato de galochas. É verdade que estas últimas não existem mais, porém, era com elas, uma espécie de calçado de borracha colocado por cima dos sapatos ou das botinas para evitar que se molhassem - ou para proteger os pés do frio -, que muita gente enfrentava a chuva durante suas andanças fora de casa. Talvez por isso, inúmeros registros dão como explicação para a existência da expressão popular que a menciona, sua ligação com a circunstância do uso, ou seja, como muitos dos que o faziam não a tiravam dos pés ao adentrarem em alguma residência, o resultado é que deixavam um rastro molhado por onde passavam, dando motivo à proprietária para resmungar qualquer coisa sobre o “chato de galochas” que acabara de chegar. Dizem que o inventor do artefato foi o industrial B. F. Goodrich (no século 19), fabricante de pneus que também criou o nome aproveitado na locução de que falamos, segundo alguns, pelo proverbial senso de humor do carioca.
Uma outra versão é dada por Valter Kehdi, professor de Língua Portuguesa e Filologia da Universidade de São Paulo. Para ele, não se pode deixar de lado a hipótese de que a expressão seja resultante do fato de que como a galocha reforçava o calçado, tenha nascido daí a idéia de se atribuir ao inconveniente em dose dupla o apelido de chato de galocha, como forma de classificar, por analogia, a impertinência também reforçada do cidadão capaz de estragar o dia de quem tivesse a pouca sorte de tê-lo pela frente. Por sua vez, o escritor Artur da Távola assegura que a metáfora é uma redundância da condição concedida pela galocha ao chato indesejado, permitindo-lhe aproximar-se de um grupo de pessoas sem fazer barulho, de mansinho, evitando assim a dispersão dos seus participantes.
Voltando a Guilherme Figueiredo, afirma o escritor que “só existem dois meios de identificar o chato: pela fama, conceito e reputação, ou pela experiência própria. No primeiro caso, a notoriedade não obriga a qualquer esforço de reconhecimento, porque a simples menção do nome, ou o simples aparecimento da fisionomia, nos põem em sobreaviso; no segundo, o estar sendo chateado resulta de uma série de estados emocionais e sintomas que, pouco a pouco ou repentinamente, assaltam o paciente ante a presença, a voz, a menção e a lembrança do chato”. Mas existem alguns equívocos quanto ao uso da palavra, como, por exemplo, associar tristeza com chatice, ou fazer a mesma coisa em relação à feiúra e antipatia, já que é muito comum, nesses casos, confundir-se a pessoa chata com o indivíduo metido à besta, o sabe-tudo, prepotente ou presunçoso.
Já se disse que o uso da palavra chato está mais condicionado às pessoas tagarelas, que falam, falam, e nada dizem, que são inconvenientes, irritantes e repetitivas, embora no outro extremo, o do mutismo ou laconismo, isso também seja permitido, já que na verdade, os chatos habitam os extremos da conveniência, indo da mudez irritante à falação interminável, da visível grosseria à polidez afetada e cheia de etiquetas. Assim, quando nos deparamos com alguém que possua tais características, estamos diante de um chato, mas quando esses mesmos indicativos extrapolam os limites do humanamente suportável, o problema é muito mais sério, pois nos defrontamos, no caso, com um autêntico chato de galocha.
Oscar Wilde dizia que “Sempre que alguém quer esgotar um assunto, esgota a paciência do leitor”. Por isso paramos por aqui, pedindo, como Machado de Assis: “Perdoai a chateza das minhas palavras”.





