A a D - CHEIO DE NOVE-HORAS

O escritor Malba Tahan explica em seu livro Os Números Governam o Mundo, que antigamente nove horas era frase familiar de despedida, porque assinalava o termo de uma visita ou de uma prosa. Com a frase "São nove horas e não chove", o visitante revelava ao visitado o seu desejo de partir, enquanto outras pessoas, nas ruas, avisavam em voz alta: "Nove horas! Nove horas! Quem é de dentro, dentro, quem é de fora, fora...". Mas quando a visita era importante, ou interessava de modo especial ao dono da casa, este ponderava amigavelmente: "Ora, não esteja, desde já, com nove-horas", ou ainda, "O senhor está cheio de nove-horas".


Em sua obra aqui mencionada, o celebrado professor de matemática e escritor também informa que o poeta mineiro chamado Ataliba Lago dava outra explicação curiosa para a origem da expressão. Dizia ele em um de seus trabalhos: "Existe uma planta, a sensitiva, ou maria-fecha-a-porta, que é pelo nosso sertanejo denominada nove-horas. Ao menor toque essa planta 'se encolhe' toda, pois é muito sensível e delicada. A pessoa cheia de luxos e melindres, é por isso denominada 'cheia de nove-horas ".

 

São numerosos os registros onde está presente a anotação de que nos tempos passados as pessoas se recolhiam às suas casas, costumeiramente, às nove horas da noite. Por isso, quando os ponteiros dos relógios se aproximavam desse horário limite, a praxe era de que as visitas chegassem ao fim, os jogos ou qualquer outro tipo de divertimento terminassem, e homens e mulheres tomassem o caminho de suas respectivas residências. Esse costume europeu chegou ao Brasil ainda nos tempos coloniais, sabendo-se que por volta do século dezenove os policiais do Rio de Janeiro e de algumas outras cidades brasileiras obedeciam ao pé da letra um dispositivo do seu regulamento onde ficava explícito que depois das nove horas da noite, "ninguém será isento de ser apalpado e revistado".

 

Daí que essa expressão foi-se tornando popular, embora o seu sentido original tenha sofrido modificação, e agora é usada sempre que se deseja insinuar que algum sujeito é petulante, cheio de etiquetas e manias, transbordante de melindres, ou absolutamente maçante em suas exigências e censuras. Diz-se, então, que essa peça rara é "cheia de nove-horas", ou em outras palavras, um chato, aquele que na definição de Guilherme de Figueiredo (1915-1977), “é o indivíduo, ser, coisa ou evento cuja presença, existência, atitude, ação ou lembrança, continuadamente, tem a capacidade de inspirar sentimentos contrários à alegria de viver, à paz de espírito e à Paz Mundial”.

 

Em seu livro “Tratado Geral dos Chatos”, o autor expressa sua opinião de que cabe à ciência constatar a existência do chato sob suas diversas formas, pois não houve um só período da Humanidade em que ele não estivesse presente e atuante. E é isso o que o escritor procura fazer com meticulosidade, apresentando-nos uma extensa e hilariante classificação desse tipo de gente, na qual estão incluídos os “ofertantes”, os “gratitudinenses”, os “confidenciais”, os “artesanais”, os “donjuanescos”, os “otelos”, os “faisões”, os “agressivos”, e muitos outros mais.

 

Sobre estes últimos, explica Guilherme de Figueiredo que “embora se chamem bonzinhos, contém sempre uma dose de agressividade, a de sua própria natureza de chatos. Os agressivos puros levam o assalto físico além da simples presença, do atracar pelo cotovelo ou pela lapela, do barrar na rua até que o paciente perca a condução, do obrigá-lo a sentar-se para ouvir, e do uso de outros pequenos recursos contra o corpo humano que não chegam a ser mencionados no Código Penal como “agressão”. O chato que nos gruda no braço não violou propriamente a lei penal; quando muito transgrediu o artigo 141 da Constituição Federal, no que estabelece que somos livres de ir e vir, ou de deixar falar.

 

No que diz respeito às mulheres, ele fala das feias de várias espécies, como “a que se sabendo feia, desenvolve o intelecto como compensação e se torna uma “cabeça-chata” (que não deve ser confundida com a pessoa normal, de um ou outro sexo, oriunda do Nordeste); a “beneficente”, cuja bolsa contém sempre listas para passar, rifas, bilhetes, subscrições, propostas de sócio, etc.; a “chatânica”, canibal ou peixe-abissal, devoradora de carne-humana masculina; “hylea” virgem, sóbria e úmida; a “macrobiobroto”, ou “sexagerada”, ou “velha assanhada”.


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