E a H - ERRO CRASSO
O general e estadista romano Marco Licínio Crasso nasceu provavelmente em 114 a.C., e morreu em 53 a.C. Desterrado em 87 a.C. por Cneu Cornélio Cina (?-84 a.C.), que na época era o cônsul romano, ele buscou refúgio na Espanha, mas retornou à Itália com os exércitos de Lúcio Cornélio Sila (138-78 a.C.), ditador romano, a quem prestou serviços, recebendo como recompensa ricas propriedades confiscadas aos proscritos. Nomeado pretor em 71 a.C., comandou um exército contra o gladiador Espártaco e seus partidários, e os venceu nesse mesmo ano, às margens do rio Silano, praticando, então, inúmeras crueldades. O grego Plutarco (46-120), cronista de vidas ilustres, conta que os seis mil sobreviventes das tropas derrotadas foram crucificados ao longo dos 200 quilômetros da Via Ápia, de Cápua, perto de Nápoles, a Roma, de modo a atemorizar outros escravos e impedi-los de qualquer movimento rebelde.
Marco Licínio Crasso foi, em seu tempo, uma das maiores fortunas de Roma. Os registros a seu respeito revelam que essa riqueza foi conquistada à custa de fogo e sangue, pois ele transformava as calamidades públicas em sua maior fonte de renda. Mesmo possuindo inúmeros negócios e propriedades, as brigadas contra incêndio eram uma de suas formas mais peculiares de ganhar dinheiro. Como esses eram relativamente comuns na cidade, quando uma casa pegava fogo a brigada cuidava de extinguí-lo, reivindicando depois um pagamento pelo serviço prestado. Caso o mesmo não fosse efetuado, o imóvel passava a pertencer a Crasso, e o antigo habitante transformava-se em inquilino, obrigado, portanto, a pagar aluguel pela moradia.
Quando o ditador Lúcio Cornélio Sila dominou a capital romana e vendeu publicamente em leilão os bens daqueles que haviam sido condenados à morte, Crasso sempre participou dos mesmos, seja para receber de presente os referidos bens, seja para comprá-los por preços reduzidos. Além disso, ao perceber que os estragos mais comuns nos edifícios de Roma provinham do fogo e desmoronamentos causados por raios ou pelo número excessivo de andares, ele comprou cerca de quinhentos cativos, entre pedreiros, carpinteiros e construtores, e assim, quando alguma casa sofria um desses estragos, ele tratava de comprá-la, bem como as vizinhas, cujos donos, temendo o perigo que corriam, vendiam-nas por uma insignificância. Eis porque, com o correr do tempo, grande parte das casas da cidade de Roma passaram a pertencer-lhe.
Além disso, possuía minas de prata e excelentes terras para a lavoura, cuidadosamente trabalhadas por grande número de escravos, entre os quais estavam incluídos professores, escritores, ourives, moedeiros, cobradores, mordomos, estribeiros e copeiros, instruídos pessoalmente por ele, com clareza e concisão, sobre os afazeres domésticos, a fim de que se transformassem em elementos úteis, fieis e dedicados.
Eleito cônsul em 70 a.C., e pretor em 65 a.C., participou do primeiro triunvirato romano com Pompeu e Júlio César (60 a.C.), com o objetivo claro de enfrentar o poder do Senado. Era um político medíocre, além de ambicioso e interesseiro, mas mesmo assim obteve o governo da província da Síria, quando então empreendeu uma precipitada e desastrosa campanha contra os partos (54 a.C.), povo pertencente à Pártia, reino fundado em 250 a. C., e que chegou a ocupar a região entre o mar Cáspio e o golfo Pérsico até a fronteira da Índia, na antiga Pérsia, aproximadamente o atual Irã.
Os registros históricos relatam que em 53 a.C., confiando em demasia na superioridade numérica de seus centuriões durante a campanha que fazia contra os partos, ele deixou de lado todos os conhecimentos e técnicas de guerra que possuía e decidiu livrar-se dos inimigos atacando-os sem maior perda de tempo. Para isso achou por bem cortar caminho por um vale longo, estreito e de pouca visibilidade. Foi essa, certamente, a decisão mais estúpida da história militar, pois os locais, em menor número, mas organizados, fecharam as duas únicas saídas da autêntica armadilha em que Crasso e seu exército haviam entrado, e o que resultou disso foi um massacre que liquidou com todo o efetivo da legião romana, inclusive seu chefe.
O que sobrou dele foi apenas a expressão erro crasso, usada sempre que alguém, tendo tudo para acertar, só consegue cometer um erro grosseiro, grande e completo, o que, aliás, é o que mais se vê acontecer hoje em dia.





