I a M - LAVAR AS MÃOS

Lavar as mãos é uma atitude sobretudo higiênica. Ela nos resguarda da companhia de hóspedes indesejáveis - como vermes e micróbios nocivos à saúde - e por isso deve ser praticada habitualmente por todos nós, principalmente antes das refeições. Mas além desse significado salutar, a frase-feita tem outro nem tanto assim, já que também serve para identificar um tipo de procedimento nada recomendável: o da fuga à responsabilidade, da abstenção quanto à tomada de decisões importantes, ou então o fingimento de que não se tem nada a ver com o que possa acontecer a alguém, ou em algum lugar. A origem dessa expressão popular está na passagem bíblica que relata a condenação de Jesus Cristo à morte na cruz.

 

No Evangelho de São Mateus (27:11-26), lê-se que Jesus compareceu diante do governador (Pilatos), e este o interrogou: “És o rei dos judeus?”, respondendo-lhe Jesus que sim, sem dar resposta, entretanto, às acusações dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos. Perguntou-lhe novamente Pilatos: “Não ouves todos os testemunhos que levantam contra ti”, mas Jesus não lhe disse uma palavra.

 

A partir daí, diz a Bíblia que o costume vigorante na época era o do governador, em cada festa da Páscoa, soltar um prisioneiro a pedido do povo. Como naquela ocasião encontrava-se atrás das grades um malfeitor afamado conhecido pelo nome de Barrabás, Pôncio Pilatos dirigiu-se ao povo reunido diante do tribunal e perguntou qual dos dois - Barrabás ou Jesus, que se chama o Cristo - eles desejavam que fosse solto. Mas os  sacerdotes e os  anciãos conseguiram  persuadir o povo a pedir a libertação de Barrabás, decretando, assim, a morte de Jesus. Enquanto isso acontecia, a mulher do governador lhe mandou dizer por uma criada: “Nada faças nada a esse justo, porque hoje eu fui atormentada por um sonho, e ele era a causa”. Diante disso, Pilatos tomou novamente a palavra e indagou: “Qual dos dois quereis que eu vos solte?”. E a multidão respondeu em coro:  “Barrabás!”. 

 

Indeciso, Pilatos perguntou ao povo postado diante de si: “Que farei então de Jesus, que é chamado o Cristo?”. E o povo respondeu a uma só voz: “Seja crucificado!”. Hesitante, pois não sabia o que fazer diante daquela situação perigosa, o governador tornou a perguntar: “Mas, que mal fez ele?”. E os que ali se encontravam gritaram ainda mais alto: “Que seja crucificado!”. Diante disso,  Pilatos viu que  não adiantava continuar tentando mudar o rumo dos acontecimentos, pois o povaréu se agitava e o tumulto crescia cada vez mais. Então ele ordenou que lhe trouxessem uma vasilha com água e nela lavou as mãos diante dos que o pressionavam, dizendo: “Sou inocente do sangue deste homem. Isto é lá convosco”. E todo o povo respondeu: “Caia sobre nós todos o seu sangue e sobre nossos filhos”. Foi assim que Pilatos libertou Barrabás e mandou açoitar Jesus, entregando-o em seguida para ser crucificado.

 

Temos, portanto, que a locução “lavar as mãos” nos vem de muito longe, cerca de dois mil anos atrás, mas sempre mantendo, apesar disso, a sua modernidade, a sua atualidade, em cada um dos séculos que ficaram para trás. Isso porque as gerações que se sucederam também foram pródigas, uma a uma, em homens e mulheres que aceitavam o “não ter nada com isso” como padrão de comportamento, como forma de jogar sobre os ombros de terceiros a responsabilidade que o momento, a situação, a atividade ou o cargo lhes atribuía. Hoje, mais do nunca, essa atitude parece ter ultrapassado a fase do modismo e alcançado o status de modus vivendi, ou seja, transformou-se em um modo de vida onde ninguém é responsável por coisa nenhuma, razão pela qual nos transformamos em um país em que os espertinhos, espertos e espertalhões multiplicam-se como erva daninha em meio à boa cultura.

 

Diante disso, resta aproveitar o pensamento do humorista Millôr Fernandes para dizer que hoje em dia existem apenas duas alternativas à nossa disposição: ou deixamos de “lavar as mãos”, ou então nos locupletemos todos.

 

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