I a M - MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS
A origem dessa expressão tem versões diferentes, e a mais aceitável delas conta que a partir de 1777 reinou em Portugal a rainha Maria I (1734-1816), sucedendo a seu falecido pai, o rei José I. Mas a morte do marido, ocorrida em 1786, e a do filho primogênito em 1788, seguidas em 1789 pela Revolução Francesa e suas conseqüências, impressionaram o espírito da rainha e perturbaram seu juízo, fazendo com que os primeiros sinais de loucura nela se manifestassem no dia 1º de fevereiro de 1792.
Sete anos depois, em 17/07/1799, quando já não havia mais nenhuma esperança de que sua mãe pudesse ser curada, o príncipe João (1767-1826) assumiu a regência. Em 1807, assim que as tropas de Napoleão invadiram Portugal pela primeira vez, a família real e a corte lusitana aceitaram o conselho dos ingleses e se mudaram com armas e bagagens para o Brasil, viajando numa esquadra que navegou até a cidade do Rio de Janeiro escoltada durante todo o percurso por navios de guerra britânicos.
Em seu novo lar Maria I era quase uma reclusa, pois em virtude do seu estado mental recomendar cuidado e atenção, pouco lhe permitiam sair às ruas, precaução cuja finalidade era evitar que a possibilidade de algum constrangimento pudesse surgir enquanto ela estivesse passeando por perto do palácio (na ilustração o Palácio da Quinta da Boa Vista em 1822), observada por gente do povo que talvez não entendesse corretamente o problema de sua insanidade. Mas nas poucas vezes que isso acontecia, a mãe do príncipe caminhava ao lado de damas de companhia devidamente orientadas sobre a necessidade de evitar ou contornar problemas, porque, afinal de contas, tratava-se da rainha, e disso ninguém poderia esquecer.
Mas o povo é observador, e por isso enxerga, avalia e comenta o que acontece com as pessoas, sejam elas nobres ou plebéias. Sendo assim, a cada vez que a rainha passeava pelas ruas da cidade cercada pelas inúmeras acompanhantes, os que a viam diziam simplesmente “lá vai a Maria com as outras” , porque sabiam que a nobre dama circulava pelas redondezas do palácio imperial fazendo somente o que suas damas de companhia permitiam.
E assim surgiu a expressão “maria-vai-com-as-outras”, que foi se tornando cada vez mais conhecida até passar a ser empregada para indicar pessoas sem convicção do que fazem, sem vontade própria, ou até mesmo sem coragem para defender suas idéias, suas opiniões e seus posicionamentos. Mas uma segunda versão defende a idéia de que a frase-feita seja uma alusão às 150 ave-marias no rosário, cada qual separada por um dos quinze padre-nossos.
Uma boa sugestão é a de que as crianças e mesmo os adultos leiam o livro “Maria-vai-com-as-outras”, escrito e ilustrado por Sylvia Orthof (Ática, Coleção Lagarta Pintada, 32 páginas). “O dito popular dá nome a esse livro, simples e engraçado, que fala da ausência de personalidade e desse nosso hábito de fazer aquilo que os outros fazem. A história é sobre um ovelha chamada Maria que ia sempre ‘onde as outras ovelhas iam’ e fazia sempre ‘o que as outras ovelhas faziam. De uma forma cômica a autora consegue conquistar qualquer idade, mostrando como devemos não-agir, somando linguagem pouco complexa e desenhos bem peculiares, como a Maria comendo jiló cheia de dúvidas. Um livro que pode ser aproveitado para abordar, de uma forma diferente, a conquista de nossa personalidade nas pequenas coisas”.





