I a M - MATAR O BICHO
O folclorista Luiz da Câmara Cascudo revela em seu livro Locuções Tradicionais do Brasil, que no “Journal d'um bourgeois de Paris sous le régne de François”, da primeira metade do século 16, informaram sobre uma certa Madame La Vernade, filha de um general chamado Briçonnet, que “faleceu subitamente em junho de 1519 e, na autópsia, os cirurgiões encontraram um verme desconhecido atravessando o coração da morta, vivo e resistindo a todos os tóxicos, sucumbindo apenas na aplicação do vinho”.
Em outras palavras, sabe-se pela história que depois de usarem todos os recursos de que dispunham para matar o parasito, os médicos resolveram então colocar sobre aquele organismo estranho um pedaço de pão bem umedecido em vinho forte, o que foi suficiente para liquidá-lo em pouco tempo. Depois dessa experiência, os doutores passaram a recomendar que de manhã cedo o jejum das pessoas fosse quebrado com pão e vinho, como prevenção contra esse tipo de verminose.
Dizem os estudiosos da palavra que os beberrões aproveitaram a deixa e passaram a se prevenir contra a visita do mencionado hóspede, mas aos poucos foram passando para bebida mais forte, depois aboliram o pão, e hoje em dia a prática é a de se matar o bicho a qualquer hora, com a cachaça ocupando o lugar outrora pertencente ao derivado do suco da uva. Antes da palavra “cachaça” se generalizar na fala do povo, praticava-se os eufemismos “vinho de cana”, “aguardente da terra”, “geribita da terra”, entre outros, mas a partir sua popularização no final do século XVIII, nenhum outro sinônimo passou a ter maior apelo cultural e significado histórico do que o nome “parati” para designar a bebida.
O registro gráfico mais antigo da palavra “parati” como sinônimo de cachaça, é dado por Câmara Cascudo, que o encontrou numa citação do jornal A Duquesa do Linguarudo, do Recife, de 1877, feita por Pereira da Costa: “A patrícia, a que na Corte chamam Paraty, tem no norte o nome de Canna”. Interessante é que o sinônimo de cachaça aparece escrito com letra maiúscula, como o nome do lugar. “Parati” para nomear “cachaça” é usado desde o início do século XVII, quando a aguardente fabricada em Parati, histórica cidade litorânea do Estado do Rio, já era considerada a melhor e superior a todas as outras da colônia, sendo por isso a mais cara no comércio comum e também a mais valiosa no mercado do ouro e de escravos.
No site (www.museudacachacamg.com.br), do Museu da Cachaça, localizado na cidade mineira de Caeté, podem ser encontradas inúmeras curiosidades relativas à cachaça. Como a que explica a origem daquela coleção, por exemplo: “O Museu da Cachaça de Minas Gerais faz parte do magnífico acervo de cachaças do médico mineiro Paulo Diogo Monteiro de Barros, de 79 anos. Localizado no Sítio Vale do Ipê, ao pé da Serra da Piedade, Estrada da Fazenda Ouro Fino na histórica cidade mineira de Caeté, o Museu da Cachaça retrata com muita fidelidade a história da cachaça através dos tempos. Esta coleção começou despretensiosamente, em um bar da cidade de João Pinheiro no noroeste mineiro, em 1970, quando Dr. Paulo viu diferentes marcas de cachaças expostas na prateleira do boteco e decidiu comprar todas elas. Naquele instante dava-se início a este patrimônio histórico cultural, que é esta fantástica coleção”.





