N a Q - PINTAR OS CANECOS
Diabo é cada um dos anjos maus expulsos do céu, segundo a teologia católica. Como eles representam o espírito das trevas, é natural que sejam lembrados para reforçar a apresentação de coisas geralmente ruins. Mas o vocábulo também é usado para definir conceitos ou com sentido decorativo no complemento de algumas frases, assim como em “que diabo anda fazendo esse rapaz?”, e empregado ainda para exprimir espanto e raiva (com os diabos!); para qualificar pessoas sem energia ou que vivem em dificuldade (pobre diabo); para designar momentos de penúria (comer o pão que o diabo amassou); para mandar alguém embora (vá para o diabo!); para explicar que as coisas não correm tão mal como se espera (o diabo não é tão feio como se pinta); para exprimir espanto (com seiscentos diabos!); para definir comportamentos (o diabo do rapaz não faz coisa que preste); para dar força à expressão (fazia um frio dos diabos), e em muitas outras situações.
Já o substantivo cão identifica não só o animal tido por quase todos como o melhor amigo do homem, mas também serve de apelido para os demônios chamados costumeiramente de espíritos do mal. Por isso sua associação com o que não presta, aí incluídos o indivíduo de má índole, o calote, o lanço infeliz no jogo de dados ou a designação dada a alguém por desprezo. Contudo, na Grécia antiga os demônios eram classificados como seres intermediários entre os homens e a divindade, ajudando os deuses na organização do mundo e na manutenção da ordem moral, sendo crença popular que cada cidade, cada família, cada indivíduo possuía um guia ou gênio particular, e segundo outros, dois guias: um bom, outro mau. Esta superstição também existia entre os latinos, que chamavam tais guias de gênios.
De cão veio o caneco, que mesmo sendo uma caneca de fundo estreito e bordos altos, é mais conhecido pelos brasileiros como a “taça da copa”, que por sinal é nossa, ou então como qualquer troféu do mesmo formato que os times brasileiros de futebol conseguem levar para casa. Na formação da palavra foi aproveitado o termo de composição eco, usado como sufixo para indicar inferioridade e depreciação, resultando daí que sua significação literal (diabo pequeno) proporcionou o surgimento da expressão “pintar os canecos”, com o sentido de peraltice infantil, fazer diabruras de pequeno tamanho, esbravejar, exceder-se ou cometer certos desatinos.
O poeta alemão Wilhelm Busch (1832-1908), na ilustração, criador do que atualmente conhecemos como histórias em quadrinhos, é autor de poesias ilustradas em que relata as travessuras de dois meninos peraltas. Elas fazem parte do livro “Juca e Chico - História de Dois Meninos em Sete Travessuras”, publicado pela Editora Melhoramentos, e o primeiro desses relatos em versos diz o seguinte:
“Todos gostam afinal, / de ter aves no quintal: / as galinhas, bem nutridas, / põem ovos, quando cozidas / ou assadas, no jantar, / são gratas ao paladar. / Servem para encher almofadas / em cujo macio encosto / a gente dorme com gosto... / Aqui está a viúva Chaves, / que também gosta de aves. / Galinhas tinha ela três, / e um belo galo francês. / Ora, ao Juca, e ao Chico, um dia /ocorre uma estripulia. / Que fazem os dois madraços? / Amarram quatro pedaços / de pão, nas pontas distantes / de dois sólidos barbantes, / e ao vir a noite, ao sol posto, / deixam tudo isso, disposto / em cruz, defronte das aves, / no quintal da viúva Chaves. / O galo, rei do quintal, / -Cocorocó - dá sinal. / Depressa, cacarejando, / vêm as galinhas em bando... / E os quatro, sem reflexão, / comem as iscas de pão! / É tarde pra refletir... / Puxam... não podem sair, / Coitadinhos, do lugar! / Toca a puxar, a puxar... / porém, quanto mais trabalham, / mais penam, mais se atrapalham. / Até que desesperados, / voam, e ficam pegados / a um galho seco. Que horror! / Perderam as forças e a cor, / ficam roucos, fazem só, / quase sem voz: có...có...có. / E cada um deles, depressa, / na agonia que começa, / põe um ovo ainda ao vento, / e exala o último alento! / Mas a viúva, que dormia, / Ouve os gritos de agonia. / Que pressentimento! Sai... / Chega ao quintal...E diz ‘Ai! / Ai! Que amargura! que espanto! / Corre dos olhos, meu pranto! / A esperança mais querida, / mais bela da vida, / eu vejo, como um bugalho, / Pendente daquele galho!’ / Aflita a pobre senhora / arranca os cabelos, chora... / e por fim, as cordas corta, / para que a família morta / não fique dançando ao vento, / naquele aborrecimento! / Foi a primeira dos dois... / houve outra logo depois".





