N a Q - PENSANDO MORREU UM BURRO
O burro, um animal híbrido que não se reproduz, é proveniente do cruzamento da égua com o jumento. Seu tipo, porte e aparência se assemelham mais com o cavalo, embora os caracteres do jumento se apresentem na estrutura do esqueleto, na sobriedade de comportamento e na resistência ao trabalho, o que lhe permite prestar relevantes serviços ao seu dono, sobretudo nas regiões montanhosas. No entendimento do povo, porém, o burro é um animal de pouca inteligência, daí a denominação desse muar ter-se tornado um adjetivo aplicável ao indivíduo de inteligência primária, incapaz de aprender a não ser o puramente elementar, sendo também aproveitado em diversas locuções populares usadas como termo de comparação.
Como, por exemplo, “burro carregado de livros”, para qualificar o indivíduo que tem o grau de doutor sem o merecer; “burro de carga”, tipificando aquele que executa não só o trabalho que lhe compete, mas ainda o dos outros; “cabeça de burro”, quando se trata de um indivíduo sem inteligência; “vozes de burro não chegam ao céu”, para esclarecer que opiniões sem autoridade ou valor não devem ser levadas em consideração; “dar com os burros n’água”, no caso de alguém ser mal sucedido em alguma empresa; “fazer-se de burro para comer capim”, que é quando o indivíduo finge não perceber ofensas e sofrimentos para poder viver em paz com alguém; “prender ou amarrar o burro”, é o que se diz do sujeito amuado ou zangado; “trabalhar como burro” nos casos em que a pessoa trabalha de maneira acima do normal; e “quando um burro fala, o outro abaixo a orelha”, nos casos em que alguém interrompe a fala de um outro em momento inoportuno.
Uma das mais antigas citações sobre o burro (ou mula, ou jumento) é feita em Números, 22:27, texto bíblico que relata a viagem dos israelenses após a fuga do Egito, quando diz que Balaão cavalgava em sua jumenta e esta se deitou ao ver à sua frente, pela terceira vez, o anjo do Senhor, sendo por isso fustigada violentamente pelo cavaleiro que se mostrava encolerizado porque não tinha a mesma visão do animal, e por isso não sabia o que estava acontecendo. “Então o Senhor abriu a boca da jumenta, que disse a Balaão: ‘Que te fiz eu? Porque me bateste já três vezes?’ ‘Porque zombaste de mim - respondeu ele. - Ah, se eu tivesse uma espada na mão! Ter-te-ia já matado’. A jumenta replicou: ‘Acaso não sou eu a tua jumenta, a qual montaste até o dia de hoje? Tenho eu porventura o costume de proceder assim contigo?”.
Segundo o escritor e professor Deonísio da Silva, “um outro registro, também muito antigo foi feito por Fedro, escravo do imperador Augusto que traduziu e reescreveu fábulas de Esopo. Numa delas, um burro encontra uma lira, tenta tocá-la e, não conseguindo, lamenta a sorte do instrumento, que em vez de cair nas mãos de alguém capaz de extrair suaves harmonias, foi topar justamente com ele, burro, que nada entende de música”. O mesmo autor ainda revela que “o burro fala também em divertida estrofe de Bábrio, o poeta grego que pôs em versos várias fábulas de Esopo. Um burro sobe no telhado de uma residência e quebra muitas telhas. Quando o dono o castiga, ele retruca, sentindo-se discriminado: 'no outro dia, quando o macaco fez a mesma coisa, você riu”.
Para os nossos poetas sertanejos, o burro, animal de montaria, faz parte do seu cotidiano, daí a infinidade de versos que o têm como inspiração. Um exemplo de cantiga geralmente ouvida em rodeios e vaquejadas: Montei num burrão vermeio que o cumpade me vendeu. / Cutuquei ele na espora e o burro nem se mexeu. / Quando vi os urubus sentano num gaio torto, / foi aí que eu percebi que o burro já tava morto. E é ainda o professor Deonísio da Silva que esclarece: “Enfim, a metáfora que dá o burro como animal que simboliza por excelência a ignorância está presente em muitas outras línguas, de que é exemplo o ditado alemão: ‘Man kann den Esel mit Atlasdecken belängen, er bleibt doch immer ein Esel' (pode-se cobrir o burro com um atlas e ele continuará sendo sempre um burro)”.
A expressão “pensando morreu um burro” tornou-se inicialmente uma resposta gaiata à frase “estou pensando”, ou “estou estudando”, uma analogia bem-humorada com a postura costumeira do burro diante do cocho vazio: ele permanece parado e com a cabeça baixa, como se estivesse mergulhado em profunda meditação. E se alguém avisa que deixaram o burro pensando, porque não lhe providenciaram nem um fiapo de capim, ouve a resposta de que do jeito que está, o bicho vai acabar morrendo de fome. Daí a frase-feita ganhou terreno, invadiu todas as camadas sociais, e agora é empregada pelas pessoas sempre que elas se vêem diante de um indivíduo que permanece quieto em seu canto, aguardando não se sabe o quê, apenas imaginando o que fazer para resolver seus problemas ou satisfazer suas necessidades.





