N a Q - NÃO DIZER COISA COM COISA

Em linguagem comum - a falada nas esquinas da vida pela maioria quase absoluta da população - coisa é tudo o que pode ser pensado, suposto, afirmado ou negado. Apesar de pequena e aparentemente desprovida de importância, essa palavra serve como termo de explicação geral, podendo substituir a tudo o que tem existência, seja permanente ou passageira, real ou aparente, conhecida ou desconhecida.

 

Avaliada segundo o sentido prático e rotineiro presente na teoria do conhecimento, coisa exprime a idéia de algo parado, imóvel, sem movimento, separada ou separável, com qualidades e propriedades, mas que se opõe ao fato ou ao fenômeno. Por exemplo: a água é uma coisa, enquanto a temperatura da água é um fato. Nesse sentido, coisa e objeto são empregados comumente como sinônimos, embora, a rigor, este último termo se aplique melhor a tudo o que é suscetível de ser percebido, tanto aos fenômenos quanto às suas relações com as coisas.

 

Diante dessa amplitude de aplicações, a palavra é aproveitada em afirmações, expressões, exclamações e explicações com os mais variados sentidos, como em coisa de arromba, significando fato espantoso; coisa nenhuma, com sentido de nada; não ser grande coisa, identificando alguém desprovido de qualidade ou mérito; coisa preta, sugestão de que existe encrenca, dificuldade ou barulho; coisa de vulto, dando idéia de algo considerável ou importante; além de um sem-número de outras, tipo coisa ruim (indivíduo malvado, ou perverso, que não tem boa índole); coisas mínimas (as questões de pouca importância); coisa de respeito (aquela que tem grande valor, que é importante e respeitável); coisa da terra (artigo que se fabrica ou se usa na própria localidade); coisa-feita (bruxaria, feitiçaria, mal praticado às escondidas, ou algazarra com vias de fato); a coisa pública (os negócios, os interesses do Estado ou do país); coisas humanas (o conjunto do que existe e do que se faz neste mundo); ter suas coisas (ser intrincado); dar uma coisa em alguém (ter alguém uma síncope, desfalecer); dizer alguma coisa (proferir algumas palavras, exprimir algum pensamento ou idéia); é a mesma coisa (não há diferença, é o mesmo); o que tem uma coisa com a outra (duas situações ou objetos diferentes) e assim por diante.

 

A própria ilustração do texto desta página serve como exemplo da diversificação de significados atribuíveis à palavra em questão. Se ao examiná-la dissermos “Que coisa!”, qual sentimento ou juízo estaremos emprestando à nossa avaliação: o de espanto, incredulidade, admiração? Ou outro qualquer? Diante dessa incerteza, quem sabe o leitor poderá nos ajudar a lançar um pouco mais de luz sobre o assunto?

 

Sendo assim, como coisa é tudo aquilo que existe ou pode existir, tudo aquilo que podendo ser pensado, concebido, fantasiado ou conjeturado, pertence, por redundância, ao negócio, ao fato, ao acontecimento, à circunstância, à condição, ao estado, ao assunto, causa, motivo, além do mistério, segredo, semelhança, questão, ou em tudo mais que possa ser ligado ao imaginável em nosso comportamento, temos que a discrepância entre o que fizemos ontem e fazemos hoje, ou entre o que dissemos há pouco e dizemos agora, só pode ser medida pela comparação, e se elas não se ajustam, não combinam, estamos diante da situação em que o uso dessa frase-feita se encaixa como uma luva.

 

Portanto, se alguém disse ou fez no ontem alguma coisa diferente da que diz ou faz no hoje, tal pessoa não está dizendo coisa com coisa. E ponto final.

 

 

 

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