N a Q - NHENHENHEM
Os dicionários ensinam que a expressão nhenhenhém - com as variações nenhenhê e nenhenhém - é um brasileirismo com significado de resmungo, repetição de palavras, recalcitração insistente e teimosia. Originada do tupi - língua geral falada até o século 19 em nosso litoral - e mais precisamente do verbo nhe’eng (falar, piar), ela é usada costumeiramente na forma de “vamos deixar de nhenhenhém”, ou “chega de nhenhenhém”, com o sentido de “pare de ficar falando”, ou “acabe com essa falação interminável, com esse discurso irritante e monótono”. Os estudiosos do nosso idioma asseveram que quando os portugueses chegaram ao Brasil, os indígenas não entendiam coisa alguma do que aqueles homens estranhos falavam, e por isso comentavam que eles ficavam a dizer nhenhenhém.
Na verdade, poucos brasileiros têm conhecimento de que a linguagem usada no país incorporou em torno de 20.000 vocábulos do idioma falado há 500 anos pelos nossos indígenas. Por ser comum às tribos cujos domínios se estendiam pela faixa litorânea que vai dos estados do Paraná ao Maranhão, o tupi correspondia, por assim dizer, a uma grande unidade cultural que foi sendo apreendida pelos colonizadores até se transformar na língua brasílica. Ao contrário do que aconteceu no restante da América Latina, quando os conquistadores espanhóis liquidaram com toda e qualquer manifestação cultural nativa, no Brasil ocorreu o inverso, ou seja, uma colonização do colonizador. Para os pesquisadores da história nacional, essa singularidade é explicada pelo fato de que os portugueses que para cá vieram durante o período inicial da colonização, consolidaram a ocupação do território descoberto através do casamento com índias escolhidas entre as das tribos que subjugavam, e como elas é que criavam os filhos nascidos dessa união, ensinavam a eles o seu modo de falar, resultando daí que os primeiros descendentes de europeus em terras brasileiras tiveram o tupi como língua de adoção.
O padre Antônio Vieira (1608-1697), pregador jesuíta nascido em Lisboa e que durante vários anos exerceu sua atividade religiosa no Brasil, foi o autor de algumas obras literárias que se tornaram famosas, entre elas três volumes de Cartas, dois deles publicados em 1735 e o terceiro em 1746. Em um desses trabalhos, o missionário revela que “É certo que as famílias dos portugueses e índios de São Paulo estão ligadas umas às outras, e que a língua que nas ditas famílias se fala é a dos índios. E a portuguesa, a vão os meninos aprender na escola”.
Tratando dessa particularidade da formação lingüística no país, Bruno Paes Manso afirma em seu texto Tupi or not Tupi, que “O indício mais generoso dessa assimilação cultural aconteceu quando os portugueses sistematizaram uma gramática e uma linguagem escrita para o tupi. Sem esses dois elementos, alguns dos mais importantes traços culturais dos índios da época do descobrimento teriam desaparecido, já que os nativos quase não deixaram construções, registros ou objetos resistentes à ação do tempo. Graças ao padre José de Anchieta e a seus companheiros da Companhia de Jesus, muitas cartas e relatos de época foram escritos na língua original. Uma Bíblia foi vertida para o tupi por um missionário holandês e calvinista. Os momentos que precederam a Batalha dos Guararapes, em que se enfrentaram índios, portugueses e holandeses, também foram analisados em cartas escritas na língua. Foi em tupi que os bandeirantes desbravadores se comunicaram. É por isso que tantos estados, municípios e rios têm nomes de origem indígena. Pernambuco é “mar com fendas”, uma referência aos arrecifes. Paraná é “mar”. Pará é “rio”. Piauí é “rio de piaus”, um tipo de peixe. Sergipe é “no rio do siri”. Paraíba é “rio ruim”. Tocantins é “bico de tucano”.
Também do mesmo autor é a informação de que “Foi pela força de um decreto que o tupi perdeu terreno para o português. Em 1758, o marquês de Pombal, interessado em solapar o poder da Companhia de Jesus no Brasil e em aumentar o domínio da metrópole portuguesa sobre a colônia de ultramar, proibiu o ensino e o uso do tupi. Iniciou-se um longo declínio. Até meados do século XIX. redutos no interior de São Paulo ainda se expressavam em tupi, e o idioma transformou-se em bandeira nacionalista. Foi assim com o romantismo da literatura de José de Alencar e Gonçalves Dias, que faziam apologia dos heróis selvagens. Nos anos 20 o movimento modernista ironizava a mistura da cultura européia com a brasileira por intermédio do dístico “tupi or not tupi.
A revista Veja, em matéria publicada na edição de 16 de dezembro de 1998, com o título “O tupi que o Brasil fala hoje”, diz o seguinte: “Assim como o latim e o grego, o tupi antigo participou decisivamente do português que é falado no Brasil. Assim, mesmo sem saber, não existe brasileiro que não conheça alguma palavra desse idioma. Que não saboreie abacaxi, pitanga, caju, jabuticaba, sapoti, gravatá ou pequi, frutas que conservaram seus nomes nativos. Ou que jamais tenha ouvido cantigas folclóricas como ‘Eu fui no Itororó beber água e não achei. Achei bela morena, que no Itororó deixei’ - mesmo desconhecendo que Itororó é uma palavra indígena que significa bica d’água”. Nas décadas de 30 e 40 o nacionalismo então vigorante produziu a saudação integralista Anauê, que significa “você é meu parente”.
Abaixo, alguns exemplos extraídos do livro Método Moderno de Tupi Antigo, de Eduardo Navarro, professor da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo e fundador da organização Tupi Aqui, criada com a justificativa de que “Não será possível entender os 250 primeiros anos da História do Brasil se essa língua se perder”.
Pereba, que significa ferida - peteca (artefato para a prática de jogos e brincadeiras) vem do verbo petek (golpear, bater com a mão espalmada) - velha coroca (velha resmungona) nasceu do verbo kuruk (resmungar) - cutucar (tocar com a mão ou com o pé) originou-se de kutuk (furar, espetar); estar jururu (tristonho, cabisbaixo), corresponde a aruru, que tem o mesmo sentido - estar na pindaíba (estar em dificuldades financeiras), de pinda’yba (vara de pescar) - perereca (pequeno batráquio semelhante às rãs), de pererek (pular, mesma origem de Saci-Pererê, que por não ter uma perna, anda aos pulos).





