N a Q - PATATI, PATATÁ

Onomatopéia é uma figura de linguagem cujo som imita ou procura reproduzir o emitido pelos animais ou saído de alguma coisa, o que inclui as inspiradas em ruídos, gritos, canto de aves, rosnados, roncos, grunhidos e demais manifestações sonoras dos bichos de qualquer espécie, além dos sons da natureza, o barulho de máquinas e muitas outras fontes, constituindo, dessa forma, um repertório que reúne número desconhecido de palavras, locuções e exclamações usadas na linguagem coloquial para exprimir os diferentes estados de espírito das pessoas. Ao dizermos, por exemplo, que um grilo faz "cricri" ou que batemos à porta e fazemos "toc toc", estamos utilizando onomatopéias.

 

A lista é imensa, e dela constam os ah! (grito de surpresa, de dor e descoberta); argh (nojo, repúdio); atchim (espirro); bóim (mola); clap, clap (palmas); crunch (mastigação); hic (soluço); fonfom (buzina); ping-pong (troca de palavras); sniff (aspiração); tum (pancada); tic-tac (relógio); uf (alívio ou cansaço); uau (admiração), e tantas e tantas outras mais. Entre estas se encontra o patati, patatá, expressão que reproduz o som produzido pelos cascos de um cavalo em disparada, e que é usada entre os brasileiros para nomear o palavreado longo e enfadonho que caracteriza as pessoas letradas e iletradas que falam demais, sem descanso, sempre em um mesmo ritmo, e que por isso se tornam extremamente chatas e cansativas.

 

A expressão, de origem francesa, é usada lá para designar a conversa fútil entre quem nada tem a declarar, os pobres de idéia, os que pensam que sabem das coisas, mesmo não sabendo de nada. No Brasil, a acepção é a mesma, mas no seu rol também são incluídos os que conversam demais, os que esticam os assuntos além do necessário, aquelas pessoas que falam, falam e falam sem descanso ou pausa, e quase sempre num tom de voz que cansa os ouvidos de quem está condenado a escutá-la. É o que acontece em quase todos os lugares e a qualquer hora e momento, seja em um elevador, ou em um ônibus, em uma sala de espera, em um recinto fechado, no boteco da esquina, na fila de espera para comprar ingresso. E também com as vizinhas faladeiras fofocando debaixo de sua janela, na conversa que sai da casa ao lado e entra pela sua sem pedir licença.

 

Como o povo sabe disso, criou uma série de provérbios sobre o costume desagradável que é marca característica de certas pessoas. Como “Em boca fechada não entra mosca”; ou “Quem conversa demais dá bom dia a cavalo”. E os de espírito mais alegre também aproveitam o embalo e espalham histórias divertidas sobre o assunto, como a ocorrida em uma de nossas pequenas cidades do interior, onde se iniciou o julgamento de um homem processado por certo crime que praticou. Uma senhora com mais de noventa anos, nomeada como testemunha de acusação, começa a ser inquirida pelo promotor de justiça que lhe faz a primeira pergunta:

 

- Dona Mariana, a senhora me conhece, sabe quem eu sou e o que estou fazendo aqui e agora, não é mesmo?


- Claro que o conheço, Aderbal. E desde bebê, por sinal. Acompanhei a sua infância e juventude e por isso lhe digo que você me decepcionou. E quer saber por quê? Porque se transformou num mentiroso, num homem falso que trai a mulher, que espalha boatos para manipular as pessoas. Você se considera inteligente, respeitado, mas na realidade não passa de um coitado que nem sabe da gravidez da filha mais nova, aquela assanhada que por mal dos pecados não sabe dizer quem é o pai da criança.

 

Desconcertado, o promotor ainda encontrou jeito de perguntar: - E o advogado de defesa, a senhora conhece?

 

- O Tioquinha? Também conheço, e tão bem quanto a você. Eu tomava conta dele quando era bebê, porque sua mãe, minha amiga Florinda, se mandava pra rua mal o marido saía de casa pro trabalho. Fazer o quê eu não sei, problema dela.       .Mas ele também me decepcionou, pois além de preguiçoso e alcoólatra, é um puritano que não se enxerga, porque vive querendo dar lição de moral nos outros. Logo ele que não tem nenhuma. Por isso perdeu todos os amigos, da mesma forma como continua perdendo a maioria das causas em que atua. E para piorar as coisas, o zelador do prédio onde mora vem colocando em sua cabeça um belo par de chifres.

 

Nesse ponto do depoimento o juiz tocou a sua campainha, chamou o promotor e o advogado de defesa, reuniu-se com eles num círculo bem apertado, e segredou-lhes em voz baixa, porém severa: - Se algum de vocês perguntar a essa velha f.d.p. se ela também me conhece, vai sair daqui preso, entenderam bem?

 

Em outra história, marido e mulher estão deitados. Em certo momento ela pergunta::”- Se eu morresse você casava outra vez, Armando?”. E ele responde; “- Claro que não, querida! Que pergunta!”.

 

Ela Insiste: “- Não? Não por quê? Você não gosta de estar casado?”. E ele retruca: “- Imagina, docinho. Claro que eu gosto!”. Ela não desiste: “- Então, por que é que não casava de novo?”. E ele então concorda: “- Está bem, coração. Casava”.

 

Mas ela, mostrando-se magoado, não desiste do interrogatório: “- Casava?” E ele, tentando encerrar o assunto: “- Casava. Só porque foi muito bom com você”. Ela prossegue: “- E dormiria com ela na nossa cama?” E ele, sem jeito: “- Onde é que você queria que nós dormíssemos?”.

 

Aflita, ela faz outra indagação: “- E substituiria as minhas fotografias pelas dela?”. Que ele responde: “- Bom, é natural que sim”. .E ela, apertando o cerco: “- E ela ia usar o meu carro?”.  E ele, sem pensar: “- Não. Ela não dirige”.

 

SILÊNCIO...

 

Dizem que o marido já saiu da UTI, mas ainda está em processo de recuperação...

 

Esse é mal do patati, patatá, que outra coisa não é que o conversar demais, falar o que não deve, sem descanso, o que acaba deixando as pessoas cansadas e sem condição de pensar no que está sendo dito.

 

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