E a H - FAZER BOCA DE SIRI
Os caranguejos são crustáceos da ordem dos decápodes (porque possuem dez patas, assim como os camarões e as lagostas), e estão incluídos em uma subordem das quais se conhecem vários gêneros e espécies, entre elas a do siri. Ambos têm cinco pares de pernas, possuem como revestimento uma carapaça que pode ser redonda, oval ou quadrada, e são capazes de andar em qualquer direção, sem se voltar, embora preferentemente costumem locomover-se de lado. A diferença mais evidente entre o siri e as demais espécies de caranguejo está no formato das suas duas patas traseiras: enquanto as dos últimos são pontiagudas (como na ilustração), as do siri apresentam-se achatadas e largas, tal como se fossem duas pás de remo, o que dá a ele a condição de nadar. Outra distinção está no formato das laterais do corpo: as do siri são pontiagudas, mas as do caranguejo não têm nenhuma grande saliência.
Os siris são animais exclusivamente marinhos, embora possam entrar em manguezais, mas certos tipos de caranguejos vivem em água doce, com alguns passando a maior parte do tempo em terra e outros chegando a subir em árvores. Todos se alimentam de outros animais, de carniça e detritos, podendo por isso ser considerados como pequenos urubus do mar. Para isso se valem das suas garras, duas poderosas tenazes pontiagudas e curvas que existem nas patas dianteiras, com as quais prendem firmemente os alimentos e os levam à pequena boca que possuem.
A observação do procedimento comum desses animais deu origem à expressão “boca-de-siri”, que considera não só as suas garras como tal, mas principalmente o fato de que as pinças que possuem não se abrem com facilidade depois que seguram os alimentos. Considerando-se que o ato de fechar a boca implica também em se ficar calado, a expressão “fazer boca-de-siri” passou a identificar o segredo rigoroso que não se espalha porque a boca de quem o conhece não se abre para contá-lo. A palavra “boca” aparece em alguns provérbios que sugerem a idéia de segredo, como “em boca fechada não entra mosca”, ou “minha boca é um túmulo”, o que nos trás a certeza de que o boquirroto, porque fala demais, representa sempre uma ameaça à privacidade de cada um.
O professor Cláudio Moreno explica que “em latim, ‘cancer’ significa caranguejo, o que explica por que o nome da doença é o mesmo do signo e da constelação de Câncer. Essa denominação comum já ocorria entre os gregos, que também designavam o animal e o tumor com a mesma palavra - ‘karkínos’ -, de onde proveio o nosso carcinoma. Segundo Galeno (130-200), o legendário médico romano, o nome ‘câncer’ foi dado à doença porque as veias intumescidas que circundam a parte afetada têm a aparência das patas de um caranguejo; outros atribuem o nome a uma metáfora: o local do tumor é corroído dolorosamente como se um caranguejo o devorasse”.
Na mitologia greco-romana, câncer representa o caranguejo que a deusa Juno, esposa de Zeus, enviou para tentar salvar a Hidra de Lerna, monstro de muitas cabeças que estava sendo combatida por Hércules. Atendendo a uma ordem da rainha do Olimpo, o caranguejo mordeu os pés do herói, mas acabou sendo esmagado por eles, e por isso, reconhecendo o sacrifício do pequeno crustáceo, Juno deu-lhe um lugar no céu transformando-o na constelação que tem o seu nome. Essa constelação, que já havia sido identificada pelos astrônomos gregos da antiguidade, tem um conjunto de estrelas que vistas a olho nu formam uma nebulosa conhecida como Presépio, à qual os chineses chamam de Sekishiki, que significa “buraco por onde as almas sobem para o além”. Os antigos astrônomos haviam observado que no dia da menor sombra do Sol (dia 21 de junho aproximadamente no hemisfério norte) a constelação de Câncer podia ser avistada no céu, á noite, e por isso lhe deram o nome de Trópico de Câncer.





