E a H - FAZER O QUILO

A palavra “quilo” tem significados diferentes. Tanto pode ser a abreviatura de quilograma, como o termo de composição usado para exprimir a idéia de mil, como em quilométrico. Ou também aproveitada para transmitir a idéia de lábio, tal como em quilorragia, cujo significado é o de uma hemorragia pelos lábios, ou ainda quilotomia, que é a seção ou incisão dos lábios. Porém, uma de suas formas menos conhecida talvez seja a relacionada com o líquido a que ficam reduzidos os alimentos ao final do processo de digestão.

 

Esse líquido, o quilo, é mais abundante que o sangue. Chamado linfa, ele é composto por células linfáticas e por um plasma semelhante ao plasma sanguíneo, que circula pelos vasos linfáticos e pelos espaços existentes entre as células dos vertebrados, transportando glóbulos de gordura e outros nutrientes assimilados durante a digestão dos alimentos. Os gregos antigos o tratavam como khulós, ou simplesmente o suco produzido durante esse período em que o aparelho digestivo promove os fenômenos mecânicos e químicos a que é submetida a comida que ingerimos em nossas refeições. Diante disso, a expressão “fazer o quilo” deve ser entendida inicialmente como “fazer a digestão”, processo que pode ser representado ou estimulado por uma caminhada tranqüila feita depois do almoço, ou uma soneca rápida e reconfortante para os que gostam de espichar o corpo, tudo sob o pretexto de que essa é a melhor maneira de ajudar o estômago e o intestino a digerirem o que foi colocado para dentro, durante a refeição.

 

A soneca representa o curto espaço de tempo em que se passa dormindo, e sobre ela, um trabalho científico garante que uma horinha de sono ajuda o cérebro a aprender. Essa novidade é resultante da pesquisa feita pela equipe do neurocientista Robert Stickgold, da Universidade Harvard, que em estudo publicado na revista Nature Neuroscience, demonstra que o desempenho de uma tarefa simples se deteriora com a repetição ao longo do dia, mas uma soneca rápida de 30 minutos, no meio do dia, é suficiente para evitar que o desempenho piore. E se a soneca for de uma hora inteira, o desempenho volta a ser tão bom quanto no começo do dia. A grande questão agora é saber o que impede os neurônios de manterem por muito tempo seu funcionamento; e como exatamente o sono exerce seu efeito reparador. Tudo isso pode parecer novidade, mas os músicos já aprenderam essa lição há muito tempo. Treino demais num dia só pode ser frustrante, pois os dedos parecem até desaprender a lição; mas passada uma noite de sono, a passagem difícil é dominada à primeira tentativa, como se por mágica. E se for o caso de se treinar pela manhã e pela tarde, o melhor é tirar uma soneca após o almoço, como costumam fazer os concertistas. O doutor Stickgold agora explicou o por quê.

 

Por outro lado, porém, a origem da expressão talvez seja bem mais simples do que possa parecer à primeira vista. Os pesquisadores que estudam a nossa língua garantem que a palavra não tem nada a ver com o que foi explicado acima, porque sua origem é africana, ou seja, ela chegou ao Brasil trazida pelos angolanos que falavam o idioma quimbundo, usado pelo grupo banto, um dos mais importantes de Angola, e que apesar de sua estrutura bastante complexa ainda assim contribuiu com muitos termos para enriquecer o idioma português, inclusive no Brasil. Quilo, em quimbundo, significa “sono”, daí o entendimento dos pesquisadores de que o sentido da expressão “fazer o quilo” não é outro senão aquele que quase todo mundo conhece e por isso emprega com essa intenção, ou seja, a de que alguém vai dar uma boa cochilada após o almoço.


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