E a H - FICAR DEBAIXO DO BALAIO
Choco é uma perturbação orgânica e fisiológica que sobrevém às galinhas após o período de postura (podendo também ser provocada por uma alimentação deficiente), caracterizada de forma geral pela elevação de sua temperatura corporal, falta de apetite e irritabilidade, o que normalmente leva essas aves a aninhar. Daí o surgimento da expressão popular ‘ficar no choco’, cujo sentido é o de alguém se mantendo no leito ou ficando recolhido em casa.
Em virtude disso é comum que se use, no interior do país, o processo caseiro de fazer com que as galinhas saiam o mais depressa possível desse período em que sua produção de ovos fica reduzida à zero, ou seja, a ave é colocada debaixo de um balaio (cesto de palha, taquara, cipó ou bambu, com ou sem tampa, usado para guardar ou transportar alguma coisa) e de pé sobre uma poça d’água, para que não possa se deitar na posição em que normalmente permanece durante essa época de chocagem, e assim acabe esquecendo em pouco tempo o seu instinto de chocadeira e volte a produzir os ovos com que o dono da propriedade está contando.
A aplicação dessa frase no dia-a-dia da população está ligada a várias situações vividas pelo homem, sendo que a mais comum delas tem relação com o fato de alguém esconder dos outros alguma coisa, ou então permitir que qualquer assunto se prolongue indefinidamente, na expectativa de que o mesmo acabe sendo esquecido pelas pessoas. Já quando aplicada aos namorados, a expressão “ficar debaixo do balaio” traduz uma situação assemelhada, em que eles têm de esquecer o parceiro ou a parceira desejada e procurar outra companhia, recomeçando, forçadamente, todo o ciclo de aproximação e namoro, e chegando, quem sabe, até ao acasalamento.
Trocando em miúdos, a expressão “ficar debaixo do balaio” identifica simplesmente o interesse de alguém no sentido de que alguma coisa seja abafada ou esquecida, da mesma forma como no interior do país se deseja que as galinhas chocadeiras abandonem seus instintos de reprodução e voltem a produzir ovos.
Sobre os galináceos, em geral, e as galinhas chocas, em particular, é interessante conhecer o que diz sobre essas aves o folclorista Luiz da Câmara Cascudo, em seu livro Aves e Pássaros do Folclore Brasileiro:
“Galos e galinhas foram trazidos para o Brasil pelo português. A China conheceu-os onze séculos antes de Cristo e parece ter-se dado a sua domesticação na Birmânia. A entrada na Grécia data dos tempos socráticos. Homero não os cita. Decorrentemente, as superstições ligadas aos galos e galinhas são nitidamente européias com os elementos regionais vindos de espécies afins. Nenhuma ave dá idéia de maior inofensividade que a galinha, o mais pacato dos viventes. Mas não é. Tem segredos detestáveis. A simples G. domesticus dos nossos galinheiros pode dar nascimento ao pior bicho do mundo, o basilisco, espécie de lagarto que mata pelo olhar. Se ele é avistado primeiro por um homem, morre fulminado. A galinha que passa sete anos sem pôr ovos é a futura mãe do basilisco. E tem outras singularidades. Quando começa a cantar como o galo é porque está atraindo a morte para a casa dos amos. Dizem os sertanejos que: Moça que assobia, / Galinha que canta, /Faca na garganta”.
“Quem é feliz na criação de galinhas não o será nem nos amores nem no casamento. A galinha choca então é um perigo, faz abortar qualquer mulher que dela se aproxime. Muita gente séria perdeu filhos porque, não dando crédito às coisas, mexeu com galinhas no choco. Mesmo um negócio fica ao avesso se tocarem no ninho duma galinha choca. Os pés de galinha são excomungados porque espalharam as palhas do presépio onde Nosso Senhor Jesus Cristo nascera. Os ovos postos no dia da hora (Ascensão do Senhor) ficam frescos durante larguíssimo tempo e não apodrecem. A gema e a clara secam, formando uma massa espessa que serve para curar a embriaguez, enxaquecas crônicas e as feridas motivadas por insetos. Para uma criança falar e andar depressa o melhor remédio é fazê-la beber água numa casca de ovo, logo que o pinto a abandone. O pinto que nasce à meia noite do dia de São João (24 de junho) será músico e o saci-pererê o temerá sempre. É crendice paulista. Para não urinar na cama basta comer a crista do galo-capão. As cólicas do parto são evitadas se tomarem caldo de galinha preta. E a galinha preta, especialmente preta e de penas arrepiadas, é de alto prestígio no catimbó e nas macumbas para os ebós, as coisas-feitas, as mandingas, os feitiços. É justamente a que não podia ser sacrificada aos deuses na Grécia e Roma”.





